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Opinião | Zeca Chaves |

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Zeca Chaves

22/05/2020

O retrato do mercado de 60 anos atrás

A produção atual é equivalente à de 1957, mas a oferta de carros e os preços eram bem diferentes. Para pior

Quão parecido é o mercado de 2020 com o de 60 anos atrás? Graças à pandemia do coronavírus, eles são mais semelhantes do que se imaginaria. A crise provocada pela Covid-19 foi responsável pela menor produção de veículos da história brasileira. Com queda de 99,3% em relação ao ano anterior, o mês de abril registrou a fabricação de apenas 1.847 automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, resultado das linhas de montagem praticamente paradas por questões sanitárias. É um pouco abaixo das 2.144 unidades de fevereiro de 1957, até então o recorde negativo. Não à toa, foi neste ano que a Anfavea começou a computar os dados do setor.

É impressionante ver estatísticas tão similares apesar dos parques industriais tão distintos. Hoje existem 65 fábricas de 26 empresas associadas à Anfavea. No fim de 1957, havia só oito empresas: Ford, FNM, GM (Chevrolet), Mercedes-Benz, Scania, Vemag (DKW), Volkswagen e Willys.

Ao colocarmos lado a lado duas épocas tão distantes no tempo, é inevitável querer fazer mais comparações, como a oferta de veículos e seus preços. Mas aí começa a ficar mais complicado, porque informações detalhadas são raras de encontrar, pois nem mesmo a Anfavea possui esses dados. Para encontrá-los, tive de recorrer à tabela de preços que era publicada por uma revista que havia sido criada apenas em 1960, chamada Quatro Rodas.

Apenas sete marcas e 18 modelos



Na edição número 2, de setembro de 1960, podemos ver que o mercado de automóveis nacionais era formado por sete marcas e 18 modelos/versões. Havia duas marcas novatas: Toyota, que produzia o Land Cruiser (antecessor do Bandeirante), e Simca, que oferecia o Chambord. Também existia a Romi, que fabricava seu minicarro Isetta desde 1956. Mas estranhamente o Romi-Isetta não era considerado automóvel de passeio pelas regras do governo brasileiro, por ter capacidade para apenas duas pessoas.


Tabela de preços da revista Quatro Rodas número 2, de setembro de 1960, e a propaganda do carro mais popular da época: que tal gastar mais que o dobro de um VW Gol para comprar um Fusca nos anos 60? (Fotos: Reprodução)

Para nossa análise de preço, nada melhor do que usar o querido Fusca como exemplo. Chamado na época de VW Sedan, ele custava 540.000 cruzeiros. Seria equivalente hoje a R$ 120.281, fazendo a correção pelo IGP-DI (FGV), um dos índices mais antigos e que já foi usado para o cálculo oficial da inflação.

Isso mesmo: mais de R$ 120.000 por um dos modelos mais simples do mercado nos anos 60. Só para ter ideia do que isso representa, um VW Gol 1.0 básico custa atualmente R$ 50.250. Ou seja, menos da metade.

Como esse número parece fora da realidade, resolvi recorrer ao salário mínimo para descobrir se os valores não foram distorcidos pelo índice de inflação utilizado. Em setembro de 1960, o salário mínimo era de 6.000 cruzeiros, o que daria hoje pelo IGP-DI exatos R$ 1.336,46. Não muito longe do salário mínimo atual, que é de R$ 1.045.

Vamos agora fazer a conversão de cada modelo pelo salário mínimo da sua época para revelar qual carro pesava mais no bolso. Se em 2020 um brasileiro precisaria de 48 salários mínimos para comprar o Gol, o consumidor de 1960 teria de desembolsar 90 salários mínimos pelo Fusca. Portanto, mais do que o dobro, comprovando que a correção da inflação acima não está distante da realidade.

Uma porta e dois lugares por R$ 82.000




O Romi-Isetta era o modelo mais barato do mercado. Mas oficialmente não era um automóvel (Foto: Wikipedia)

Quem quisesse algo bem mais barato em 1960 poderia recorrer ao Romi-Isetta, tabelado em 370.000 cruzeiros, equivalente a R$ 82.415. É muita coisa para um carrinho de apenas 2,29 metros de comprimento (ele é 1,6 metro menor que um Gol), que tem uma só porta, dois lugares e um motorzinho bicilíndrico dois tempos de 236 cm3 e 9,5 cv. Enquanto isso, o modelo atual mais barato é o Renault Kwid Life, vendido a R$ 34.990.


Simca Chambord era o máximo do luxo na sua época. Mas teria um preço proibitivo nos dias de hoje (Foto: Divulgação Simca)

Se um automóvel tão pequeno e simples era tão caro assim, quanto valeria um carro de luxo. Na tabela de 1960, o modelo mais caro produzido em solo nacional era o Simca Chambord, um belíssimo sedã equipado com motor V8 de 2.351 cm3 com 88 cv, câmbio de três marchas e lugar para seis pessoas. Seu preço sugerido era de 1,098 milhão de cruzeiros. Em dinheiro de hoje, estamos falando de R$ 244.572.

Encontrar um equivalente atual para o Simca Chambord não é fácil. Se pensarmos num dos sedãs mais desejados das marcas generalistas, podemos sugerir um Toyota Corolla, que na sua versão mais cara (Altis Hybrid Premium) sai por R$ 142.490.

Se você acha pouco, podemos subir a régua e pensar numa marca premium e optar por um Mercedes C 180 Avantgarde, de R$ 179.900. Ainda assim, continua bem mais barato do que o Simca, que na época já era um projeto antigo, lançado na França em 1954 e com um motor dos anos 30.

Portanto, antes de reclamar que o carro no Brasil hoje é muito caro (e ele é mesmo), pense que nossos pais ou avós sofriam muito mais do que nós.



E você, o que acha? Mande seus comentários desta coluna ou sugestões para próximas: zeca.chaves@gmail.com



Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • ManoelMachuca

    Excelentematéria. Parabéns, realmente era muito custoso comprar um carro na década de 60. Um luxo.

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