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Opinião | Zeca Chaves |

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Zeca Chaves

08/05/2020

Quando as mentiras das marcas parecem verdade

Líder que não é líder, geração nova que é velha, acessórios diferentes que são iguais: como as montadoras tentam enganar o consumidor

“É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade.” Era o mote de uma célebre campanha publicitária do jornal Folha de S.Paulo dos anos 80. A voz narrava como um homem pegou um país destruído, recuperou sua economia, acabou com o desemprego e devolveu o orgulho ao povo. Enquanto enumerava suas qualidades, a imagem ia revelando aos poucos o rosto de Hitler, que culminava com essa famosa frase.

O anúncio da TV me veio à mente porque o recurso de contar uma mentirinha usando verdades também acontece na indústria automobilística. Um deles, aliás, aconteceu nesta semana, quando a Hyundai divulgou um comunicado afirmando que o HB20 foi o automóvel mais vendido do Brasil em abril.


A Hyundai diz que o HB20 é líder, mas o ranking de vendas diz o contrário (Foto Divulgação/Hyundai)

Realmente é uma grande notícia, já que era uma liderança inédita. Fui checar a informação no ranking de emplacamentos da Fenabrave, o padrão oficial do mercado para apontar os carros mais vendidos do Brasil. Para a minha surpresa, vejo que o líder lá é outro: o Chevrolet Onix.

Analisando os dados com cuidado percebe-se onde estava a pegadinha. A Hyundai criou um critério próprio: comparou as vendas do HB20 contra as da nova versão do Onix, deixando de lado a antiga, chamada de Joy. Assim, em vez de perder por uma diferença de 782 unidades e ficar em segundo lugar, o hatch da marca coreana faturou a primeira colocação com uma vantagem de 83 carros. A razão da maracutaia ficou clara alguns dias depois, quando vejo o seguinte anúncio da empresa: “Hyundai HB20, o carro mais vendido do Brasil”.

Curiosamente, não lembro de ver a Hyundai usar esse padrão em outros anos, já que é antiga a prática da Fenabrave de somar as versões novas e antigas do mesmo modelo. E, convenientemente, a marca coreana também não fez a separação da versão nova e antiga quando o atual HB20 foi lançado e havia na loja as duas gerações.

Geração nova, mas não muito




Na Europa, o Peugeot 207 era uma nova geração. No Brasil, era muito menos que isso (Foto Divulgação/Peugeot)

Engana-se quem acha que esses truques linguísticos são uma novidade no setor automobilístico. Esse tipo de artifício já é usado há muito tempo. Lembro, por exemplo, do lançamento do Peugeot 207, em 2008. O nome dava a entender que seria uma nova geração do 206, que foi um dos grandes sucessos da marca até hoje. Se na Europa já existia o 207, que era realmente uma nova geração, no Brasil ele não passava de uma reestilização do 206, um improviso feito aqui para o mercado local. A falsidade ideológica era tão evidente que esse projeto foi exportado para a Europa, onde foi honestamente vendido com o nome de 206+ ou 206 Plus.

Um dos lugares mais comuns para encontrarmos as mentiras dos fabricantes é na lista de equipamentos de série dos veículos. Principalmente dos mais baratos. Quem não lembra das antigas “supercalotas” da Volkswagen, que nada mais eram calotas normais com um nome estiloso.

O Fiat Mobi Easy tinha uma pomposa “grade dianteira texturizada”, na verdade uma simples grade plástica sem pintura. Já o Sandero Authentique ostentava “maçanetas internas na cor preta”, uma maneira para disfarçar que eram de plástico simples, sem nenhum acabamento. Menos que isso só se não houvesse as maçanetas.

O caso do Fox que cortava dedos



Sabe o que é mais irônico em todas essas distorções da realidade? O consumidor de automóveis não é bobo e, no fundo, ele sabe exatamente qual é a verdade. Portanto, esses subterfúgios não apenas não enganam o público como ainda deixam no ar uma sensação de trapaça, criando uma imagem residual negativa para a marca.

No entanto, poucas tentativas de edulcorar a realidade foram tão fracassadas e danosas à reputação da montadora quanto o episódio do banco do Fox que decepava dedos. Na época, já havia oito casos de proprietários que sofreram ferimentos com o sistema de recolhimento do banco traseiro do hatch lançado em 2003. O sistema era tão potencialmente perigoso que o número de feridos mais tarde chegou a 37 pessoas.

Mesmo assim, a Volkswagen afirmou que não havia problema no mecanismo, culpou o mau uso por parte dos proprietários e negou que fosse caso de recall. Para completar o desastre, o presidente da empresa na época, o alemão Thomas Schmall, foi à TV para repetir tudo isso em rede nacional.

Como eu disse, o consumidor não é bobo: a VW foi obrigada a convocar o recall e instalar um dispositivo para evitar acidentes. Parece até que Schmall era um adepto da teoria que era possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade.



E você, o que acha? Mande seus comentários desta coluna ou sugestões para próximas: zeca.chaves@gmail.com



Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • NEYPERES

    Caramba,com deixaram Vc publicar isto? Certo que está leve, mas.....Parabéns pela ousadia.

  • EduardoMiyashita

    AHyundai deve ter aprendido com a CAOA, com a qual compartilha a marca. É famoso o caso do Veloster, que anunciava 140 cv do motor com injeção direta da Coreia, quando vendia aqui a versão com injeção indireta com 128 cv (bem, esse era mentira mesmo). A CAOA, agora com a marca CAOA-CHERY, vive usando esses truques: recentemente tem anunciado o Tiggo 5x com letras garrafais dizendo: "PRÊMIO CARRO DO ANO 2020"; "TIGGO 5X Turbo BRILHOU E SURPREENDEU NO MAIS COBIÇADO PRÊMIO DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA BRASILEIRA". Dá a entender que o Tiggo 5x foi o vencedor do prêmio, e muito provavelmente é o que o anunciante quer que o público acredite. Só que ele foi apenas o 5º colocado, de 5 finalistas (ou seja, o último colocado dentre os finalistas). Se surpreendeu, foi só por ficar tão atrás dos outros 4 na pontuação. Mas deve ter muita gente que não leu a AutoEsporte e acredita até hoje que o Tiggo 5x ganhou o 1º lugar no prêmio. Fiz uma reclamação no CONAR, mas até agora nada, levam meses para analisar um caso, e até lá a marca deita e rola.

  • OrlandoGuida

    CaroZeca, muito bom o seu texto. As montadoras tem de entender que o mundo é outro, as informações estão cada vez mais ao alcance de todos e consumidor vai para as redes sociais com mais sede pra falar mal de sua marca do que bem. E numa sociedade politicamente correta, estes fatos terão um peso muito maior do que em outros tempos.

  • Denis

    Estetipo de comportamento vem de longa data. Na metade dos anos 90 meu pai foi comprar um Versailles e lembro que questionei porque o fechamento dos vidros traseiros era por maçaneta e não elétrico. A vendedora estufou o peito e disse que "era uma tendência no exterior" e não deu explicação lógica para o fato. A tal "tendência" é para reduzir custos de produção. Os consumidores se deparam frequentemente com este tipo de situação onde as montadoras inventam um palavrório para vender, tal como afirma o autor deste ótimo artigo.

  • SilvioMelo

    Parabénspela coragem!!!!

  • Martins

    BomTexto Zeca, bem colocado esta prática tido como esperta de algumas montadoras. Apenas fica aqui uma crítica ao seu texto: Achei desnecessário que o ótimo gancho de abertura, a partir do anúncio da Folha, ter no texto ser concluído logo após o relato do problema do Banco do FOX. você poderia ter invertido a ordem dos Exemplos de Casos. Não precisava Mencionar Hitler na Abertura e Concluir Lembrando novamente o mote logo após o comportamento da Presidente da Volkswagen. Abs

  • LuizRoberto Imparato

    Zecaparabéns por abordar esse tema e meus cumprimentos a AB em publicar seu texto. Já está na hora de ser realizado um levantamento das atitudes omissas e dissimuladas que o setor tem junto a seus consumidores.Os Órgãos Fiscalizadores e de Defesa do Consumidor não dispõem de recursos nem especialistas em número e formação acadêmica para cumprir seu papel. Vejam o caso do GM ONIX que com nota ZERO de segurança foi o carro mais vendido em nosso país. O mais emblemático ocorreu na década de 1960 com o Chevrolet Corvair denunciado pelo livro "Unsafe at Any Speed" de Ralf Naider. O último da GM no início da gestão da CEO Mary Barra matou algumas centenas de pessoas com a chave de ignição do COBALT que desligava o veículo em marcha deixando o carro sem servo freio, sem direção hidráulica e sem air bag (vide vídeo no YouTube). Devemos lembrar também o da TAKATA que envolveu 15 marcas. Mas o maior de todos os tempos que até ganhou nome: DIESEL GATE onde todas as marcas do Grupo VW lançou mão do software fraudador para burlar a legislação de emissões e posteriormente descoberto em outras marcas como MERCEDES-BENZ, FCA e outras. Acredito que o setor deixou de ter a confiabilidade, respeito e imagem que tiveram nos anos 1950 que permitia um CEO dizer: "O que é bom para GM é bom para os EUA". Creio que a disrupção pelo que o setor atravessa, não permitirá que essas atitudes continuem a existir. Assim espero!

  • WainerMaruca

    Parabéns pelo excelente texto .São de jornalistas como vc que o mercado precisa. Diferentemente de alguns colegas de profissão seus que se vendem a troco de viagens e hospedagem pagas por montadoras. Continuem sempre assim. Mais uma vez PARABÉNS. abcs

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