Automotive Business
  
ABLive

Opinião | Zeca Chaves |

Ver todas as opiniões
Zeca Chaves

24/04/2020

Por que não teremos o carro autônomo no Brasil

Entenda como legislação, mão de obra barata e alto custo dos veículos no país inviabilizam o sonho do automóvel que dirige por conta própria

Se você é daqueles que cansou de ouvir que o carro autônomo está próximo e já se imaginou indo ao trabalho digitando no seu computador ou lendo um livro enquanto o automóvel dirige sozinho, sinto lhe informar: isso não vai acontecer. Pelo menos não no Brasil. E talvez em nenhum lugar do mundo.

Não, eu não duvido que essa tecnologia possa chegar. E, só para deixar claro, hoje ela ainda não está disponível: o que existe atualmente é apenas um punhado de protótipos experimentais que trafegam dentro de locais e padrões restritos. Mas os verdadeiros obstáculos não são técnicos e, sim, econômicos e jurídicos.

Quem vai pagar se bater?



Do ponto de vista legal, a questão ainda sem resposta é: de quem é a culpa e, portanto, quem arcaria com a indenização em acidentes causados pelos veículos autônomos quando forem vendidos comercialmente? Será o proprietário, que estava distraído porque confiava na máquina, ou do fabricante, que criou um equipamento que não soube evitar a colisão? E será que as seguradoras aceitarão a apólice desses automóveis diante de tal limbo jurídico?

Por enquanto, não existe uma legislação de trânsito específica no mundo. O que há são regulamentos para testes de veículos sem motoristas, especialmente nos Estados Unidos, China e Alemanha, países que estão encabeçando essa corrida tecnológica. Mas bastará um acidente fatal para gerar um pesadelo de relações públicas e fazer com que os legisladores pensem duas vezes antes de liberar geral. Foi o que aconteceu com a Uber, que só voltou aos seus testes em vias públicas em fevereiro passado, quase um ano depois que uma ciclista morreu no Arizona ao ser atropelada por um de seus veículos autônomos experimentais.

O preço da nova tecnologia



Outro contratempo que as fabricantes terão de enfrentar, e o mais complicado de resolver, é o custo da nova tecnologia. E isso não pesa só no bolso das empresas, que terão investir bilhões de dólares num novo produto que elas não sabem se o consumidor está pronto para comprar ou mesmo para confiar. Afinal, você apostaria sua vida e a da sua família na decisão de uma máquina? Apenas 12% dos americanos disseram que sim, segundo pesquisa da Associação Automobilística Americana divulgada em março. E ainda nem falamos para esses futuros compradores o quanto eles terão de desembolsar.


O sistema Autopilot, da Tesla, é a iniciativa mais bem sucedida quando se fala de autonomia (Foto Divulgação/Tesla)

O mais próximo que temos hoje de um autônomo à venda são os modelos da Tesla, que oferecem o opcional Autopilot por US$ 7.000 (R$ 38.000) nos EUA. Esse recurso, no entanto, está apenas no nível 3 de autonomia, que acelera, freia e faz curvas sozinho, mas exige a presença do motorista para qualquer situação um pouco mais complexa.

Um carro que leva você ao trabalho sem necessidade de assumir o volante estaria no nível 5. Calcula-se que todo o pacote de sensores, radares e softwares para atingir esse nível varia entre US$ 65.000 e US$ 140.000 (R$ 360.000 a R$ 775.000). Claro que, com o aumento da produção em série, o valor vai cair, mas a questão é quem terá coragem de pagar essa conta no primeiro momento. E, mesmo que caia pela metade, ainda assim é uma conta pesadíssima.

A conta ainda será um pouco mais salgada porque os futuros veículos autônomos também serão elétricos, que custam entre 40% a 80% a mais que modelos equivalentes a gasolina. Isso nos Estados Unidos. Agora faça o cálculo pensando no mercado brasileiro, conhecido por ter um dos automóveis mais caros do mundo quando se compara o preço do veículo com o poder de compra do consumidor.


A Cruise, subsidiária da GM de veículos autônomos, sonha com robôs-táxi (Foto Divulgação/Cruise)

Solução não está nos carros de aplicativo



Bem, se ficou difícil para a pessoa física adquirir um autônomo, será que na pessoa jurídica o negócio faz sentido? Os defensores da nova tecnologia argumentam que o baixo custo de operação compensariam para empresas de compartilhamento de veículos. Pense no caso da Uber, que é uma das empresas que estão liderando os testes nessa área, seguida pela indústria automobilística, que já ensaia seus primeiros passos no mercado de carros de aplicativos.

O maior custo de uma corrida de Uber vai para o bolso do motorista. Imagine, então, o potencial de ganhos da companhia se ela tiver veículos que não precisam de motorista e que podem rodar 24 horas sem pausa. Só não podemos esquecer de um detalhe: a empresa hoje não precisa comprar o veículo nem fazer sua manutenção, que fica a cargo dos motoristas associados. Além disso, o custo da mão de obra em países emergentes como o Brasil é relativamente baixo. Sendo assim, pode até fazer sentido em mercado desenvolvidos gastar uma fábula comprando milhares veículos caríssimos no início para economizar no futuro, mas não no Brasil.

Mesmo no exterior eu não acredito que essa conta feche. Para mim essa estratégia é como comprar um veículo a diesel, que é bem mais caro, pensando apenas na economia que vai ter no consumo de combustível com o passar do tempo. Na prática isso, não funciona, pois muitas vezes leva mais de 10 anos para recuperar o dinheiro investido.

Portanto, se você é daqueles que cansou de ouvir que o carro autônomo está próximo e agora está se sentindo decepcionado, não se preocupe. Você não está sozinho. O jornal inglês The Guardian disse em 2015 que haveria 10 milhões de carros autônomos nas ruas do mundo em 2020. No ano seguinte, o site Business Insider previu o mesmo número para este ano. “Nós superestimamos a chegada dos veículos autônomos”, lamentou Jim Hackett, CEO da Ford, numa palestra no ano passado. Se até eles se enganaram, o que dirá de nós?



E você, o que acha? Mande seus comentários desta coluna ou sugestões para próximas: zeca.chaves@gmail.com



Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • Fernandode Campos

    Parabénspelo artigo Zeca! Finalmente alguém com coragem para expor outro ponto de vista, mais alinhado com os fatos. Não aguento mais esse papinho piegas e apocalíptico de: digitalização, eletrificação, veículo autônomo, etc.... Que fique claro, não sou retrógrado ou conservador mas acho que todos estes temas deveriam ser tratados com mais naturalidade e abrangência, levando em consideração aspectos econômicos, jurídicos e outros. O Brasil tem temas mais relevantes e urgentes a tratar neste momento. Precisamos finalmente descobrir nosso lugar no mundo, nossa vocação e nos posicionar estrategicamente. Essa é uma grande nação, com grandes recursos e grandes pessoas. Só falta acreditar mais na gente (coletivo, não individual) e seguir em frente!

  • DenisRabenschlag

    Parabénspelo artigo!!! Consciente da realidade brasileira e mundial. É claro que a tecnologia se desenvolverá mas não com a rapidez que muitas pessoas querem e imaginam.

  • LuizRoberto Imparato

    Vocêé muito corajoso em usar esses argumentos. O maior interesse do setor é que o carro autônomo permite a colocação de 3 X mais carros no mesmo sistema viário e isso é um fator de sobrevivência para essa indústria. Não concordo com você, legislações poderão ser alteradas.

  • Eduardo

    Falarque algo não vai acontecer só por causa de legislação e custo é basicamente afirmar que todos os progressos nao aconteceram - inclusive de carros mecânicos substituindo cavalos, que na época tbm eram caros e não haviam legislação, aviões comerciais, etc.

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV