Automotive Business
  
Siga-nos em:
AB Inteligência

Opinião | Zeca Chaves |

Ver todas as opiniões
Zeca Chaves

13/04/2020

Nos carros, brasileiro prefere o design à segurança

“Nota zero em teste de colisão? Não faz mal. Airbag de série? Vou pensar.” Sete casos que revelam como pensa o consumidor de veículos

O brasileiro médio não liga para segurança quando o assunto é carro. Claro que ele diz que isso é muito importante, que valoriza o bem-estar da sua família, mas não passa de blábláblá. A realidade é diferente: ele compra carrão do ano com vários airbags (que já vêm de fábrica, portanto sem opção de escolha), mas deixa o filho pequeno solto no banco da frente, ignora o uso do cinto na parte de trás e acha que limite de velocidade só se aplica aos outros.

Digo isso como jornalista especializado que, por mais de 25 anos, acompanhou de perto as preferências do público que gosta de ler sobre e comprar carros. Com base nessa experiência, escolhi três exemplos de como o brasileiro largou tudo só para ter o design tão desejado, três em que a segurança ficou em segundo plano e um exemplo que combina as duas situações.

Novo HB20: o estilo que afundou as vendas




As vendas do HB20 despencaram depois da estreia da nova geração (Foto Divulgação/Hyundai)

Não há melhor prova da importância do design para o brasileiro do que o novo Hyundai HB20. Assim que chegou ao mercado, em setembro de 2019, houve enxurrada de críticas para o desenho. Até o vice-presidente global da marca e responsável pelo estilo do carro, Simon Loasby, não negou que o desenho era polêmico. “O desafio do designer é romper com padrões. Se 50% das pessoas odiarem, mas 50% amarem, então estamos no caminho certo”, disse na apresentação oficial aos jornalistas no Brasil.

Para um modelo que sempre teve o design entre seus méritos, isso era um problema. O hatch, que até então costumava ser o vice-líder do ranking de vendas, caiu para o sétimo lugar em dezembro, o pior resultado em mais de cinco anos. Foram 7.697 unidades, contra uma média de 8.830 no primeiro semestre, uma queda de 12%. Não parece muito, mas lembre-se de que o mercado já sabia que o HB20 iria mudar, portanto é comum deixar de comprar a versão que sairá de linha para esperar a nova. E as vendas caíram ainda mais em janeiro: 7.042 unidades.

Renegade: bom de desenho, ruim de motor




Na última reestilização, o Renegade mudou, mas não parece (Foto Divulgação/Jeep)

Ninguém discute que o Jeep Renegade tem como principal atributo o design: clássico, icônico e cheio de personalidade. Porém, também é consenso entre seus proprietários que a motorização 1.8 flex (a mais vendida) tem desempenho fraco e consumo elevado. Por isso, virou alvo de várias piadas na internet. Como aquela que diz que, se o dono abastecê-lo de motor ligado, a bomba de combustível nunca vai conseguir encher o tanque.

Brincadeiras à parte, um teste recente da revista Quatro Rodas dá uma ideia do quão limitado é esse motor. Na reportagem que reuniu 12 SUVs compactos, o Renegade foi o pior de todos nos testes de aceleração de 0 a 100 km/h, de consumo urbano e de consumo rodoviário. Influenciado também pelo preço alto e porta-malas abaixo da média, ele ficou na última posição como opção de compra. É algo semelhante ao que se viu nos comparativos de outras revistas e sites especializados.

Nada disso, porém, tem atrapalhado a vida do Renegade. Desde que foi lançado, em 2015, ele não sai das primeiras posições do ranking da categoria. Já estamos em 2020 e o pequeno Jeep voltou a ser líder do segmento, segundo números de março, em que bateu o recém-chegado VW T-Cross.

Seu design é tão bem resolvido que foi um dos poucos carros que eu já vi que passou pela reestilização de meio de ciclo de vida (em 2019) e praticamente não sofreu mudanças no design. Afinal, não se mexe em time que está ganhando.

Hyundai Veloster: comprando só pela foto




As três portas do Veloster encantaram o Brasil, mas deram uma dor de cabeça… (Foto Divulgação/Hyundai)

Outro caso de desenho que fez as pessoas perderam a cabeça é o Hyundai Veloster, em 2011. Instigados pelas linhas agressivas e pelo diferencial das três portas (duas do lado esquerdo), muitos compraram o carro sem ao menos fazer um test-drive. O que é estranho considerando que era um modelo com pretensões esportivas. O furor consumista era tamanho que havia filas de espera e muitos assinaram o cheque depois de apenas ver as fotos do folheto, pois ainda não havia o veículo na concessionária.

Se você se perguntou se o Veloster não é aquele que virou caso de Justiça, acertou. A marca divulgava no Brasil que seu motor tinha 140 cv, mas na verdade era uma versão de 128 cv. Além disso, ele não trazia alguns equipamentos prometidos nos anúncios. Os proprietários moveram ações e ao menos dois deles ganharam a causa.

Renault Clio: o airbag que ninguém queria



Quando airbag e freios ABS ainda não eram obrigatórios no Brasil (o que só ocorreu em janeiro de 2014), a Renault resolveu usar a preocupação com a segurança como mote publicitário. O ano era 1999 e campanha de lançamento do Clio fazia questão de dizer que o modelo era o único do segmento com airbag duplo de série. “Um acessório você pode comprar na loja, um airbag só pode sair de fábrica”, dizia com orgulho o presidente da Renault.

Mas a estratégia de apostar na vida não deu certo. Pesquisas do fabricante mostravam que o equipamento não era argumento suficiente para seduzir o comprador. A marca, então, seguiu o exemplo dos seus concorrentes e anos depois os airbags deixaram de ser item de série.

Outra prova de que esse tipo de equipamento não enche os olhos dos brasileiros foi quando a Fiat passou oferecer em seus carros o kit opcional HSD (High Safety Drive) a um preço bem menor que a média do mercado. Por R$ 1.750, valores de 2012, o consumidor podia acrescentar o airbag duplo e os freios ABS. Não deu certo. No fim das contas, o comprador preferia levar um conjunto de rodas de liga leve, que custavam quase o mesmo.

Hilux: derrapada no teste do alce




As duas versões da Toyota Hilux bombaram no teste do alce da revista sueca

Em 2007, a picape Toyota Hilux levou bomba no teste do alce realizado por uma revista sueca. Esse teste avalia a estabilidade de um veículo durante um desvio abrupto da trajetória. A coisa foi tão grave que a picape chegou a tirar duas rodas do chão. Gerou grande repercussão mundo afora, mas por aqui seus donos não ligaram muito.

Nove anos depois, a mesma revista repetiu o teste com uma nova Hilux e outros seis concorrentes. Mais uma vez a picape da Toyota levantou as duas rodas. E foi a única fazer isso. Novamente virou assunto no mundo inteiro. No Brasil, deu origem a algumas piadas, mas não fez diferença para quem sonhava em ter uma Hilux. Até hoje ela é líder de vendas do segmento, apesar de ser umas das mais caras. Em março, ela somou 2.971 unidades, muito acima vice-colocada, a Chevrolet S10, com 1.582 unidades. Fabricada na Argentina, é também o veículo mais vendido da Toyota na América Latina.

Onix: nota zero sim, e daí?




Versão antiga do Onix foi reprovada no teste de colisão do Latin NCAP

O que pode acontecer se um carro líder absoluto de vendas é reprovado num teste de colisão? No caso do Chevrolet Onix, nada. Em maio 2017, o Latin NCAP, instituto que avalia a segurança dos veículos da América Latina, deu zero estrela (de um total de cinco) para o hatch, no quesito de proteção para adultos. Foi a pior avaliação de um compacto segundo os critérios da época. O assunto foi amplamente noticiado por aqui, a GM divulgou que cumpria todos as normas dos mercados locais e a vida seguiu assim mesmo.

Na verdade, parece que até ajudou, já que suas vendas não pararam de crescer. Se o Onix emplacou 12.689 unidades em abril de 2017, saltou para 15.007 carros em maio, recorde no ano. Essa marca cresceria ainda mais: 17.236 em setembro e 18.611 em novembro.

Volvo: agradando a gregos e troianos




Com seu estilo marcante, o XC60 é um dos campeões de venda da Volvo (Foto Divulgação/Volvo)

Há décadas a Volvo é reconhecida como referência em segurança, seja no Brasil ou no mundo. Mas parece que isso nunca foi suficiente, já que suas vendas sempre foram tímidas no mercado nacional.

Nos últimos anos, a fabricante sueca passou a investir no design como nunca se viu antes. Chegou até a ser eleita a marca com a melhor linguagem visual do mundo no prêmio Car Design Award de 2016.

A partir daí, o cenário começou a mudar no Brasil. Em 2018, a Volvo viu suas vendas de automóveis no país crescerem 96% em apenas um ano, contra média mundial da marca de 12,4%. Foi seu recorde histórico, com 6.836 carros, suficiente para ultrapassar a Jaguar Land Rover. Em 2019, outro recorde: um aumento de mais 15,7%, com 7.910 unidades.

Resumo da ópera: para o brasileiro ter um carro bonito é mais importante do que ter um carro seguro.



E você, o que acha? Mande seus comentários desta coluna ou sugestões para próximas: zeca.chaves@gmail.com



Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • CassioPagliarini

    Ótimoartigo. Com a profundidade adequada.

  • Rodrigo

    Zeca, otima reportagem !! O brasileiro na verdade so pensa em quanto a parcela vai caber no bolso , e esquece o resto , seguro , manutencao e pneu... nunca ouviu falar ... impostos do veiculo como ipva e licenciamento.. tbm nao o fato e que a pessoa compra um carro troca as rodas mas nao paga o seguro... e nessa lista vai longe, nao so os compactos... vc falou dos suv... meu deus tive um ix35 , e ja falei que hyundai nunca mais .. dai minha esposa queria um compass outra bomba .. motor fraco , beberrao e nada demais ... ainda bem que compramos com desconto de 20%... depois de varios anos de carros e etc.. so fui ter sossego quando comprei a minha bmw .. definitivamente os alemaes sao outro nivel de carro... num outro post falei enquanto carro de consumo for carro de luxo no brasil , vovorollas e civics serao as bolas da vez...

  • FlavioLima

    Interessanteo artigo, mas falta algo de profundidade. O que houve por exemplo com os veículos que receberam ZERO estrelas de LATIN NCAP e tiveram que se adequar depois com mudanças de projeto? O quanto teve que ser dado de desconto para a venda? Quanto de participação de mercado foi perdido ou conquistado (no caso da tese do artigo)? Sem dúvida o brasileiro tem apreço pelo design, mas é incorreto que não esteja preocupado com a segurança dos seus veículos.

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

Panorama | 28/03/2012

ALTA RODA

GRANDE NO BOM SENTIDO

Não é à toa que a Fiat consegue, em ambiente de alta concorrência entre marcas de todas as origens, sustentar liderança de vendas entre automóveis e comerciais leves. O novo Grand Siena chegou, entre outros objetivos, para fortalecer posição no segmento específico de automóveis, em que a marca tem posição algo frágil em relação à GM e à Volkswagen.

Esta coluna é apoiada por:
     

ABTV