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Valter Pieracciani

18/02/2020

Só os camaleões sobreviverão

Vivemos um momento de incertezas e, portanto, desenvolver a adaptabilidade é o único caminho seguro

Zeitgeist 2020. No futuro, como será descrito o espírito destes tempos nos quais eu e você vivemos? Zeitgeist, essa forte expressão em alemão cunhada pelo escritor Johann G. von Herder (1744-1803), virou nome de filme, música e marcou-me fortemente no período em que vivi e trabalhei na Alemanha. Refere-se à cultura e aos comportamentos da sociedade; seus desejos e os sinais que caracterizam determinada era. Arrisco-me a dizer que uma das marcas mais presentes e características da nossa geração é o medo de tudo e de todos.

O medo é a mais intensa das emoções do ser humano. Em nossos dias, muitas vezes deixamos de viver por causa dele. Mudamos a nós mesmos, fugindo de nossa essência, por receios que podem ser fictícios. No ambiente social vivemos o pânico do terrorismo, da violência, das epidemias. Da degeneração do clima e da natureza. Tememos que os alimentos sejam venenosos. No universo do trabalho, flutuamos à deriva em um oceano de incertezas que parece ter nos tirado para sempre a possibilidade de um sono tranquilo.

Tudo isso combinado produz resultados catastróficos. O estresse desarranja nosso equilíbrio hormonal e a incidência de doenças mentais cresce em ritmo acelerado. No Brasil, dados da OMS dão conta de que nada menos de que 80 milhões de pessoas sofrem de ansiedade, depressão, pânico. Uma pesquisa realizada em 2019 pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, revelou que, nos doze meses anteriores à consulta, 4,9 milhões de brasileiros tinham utilizado alguma droga ilícita.

Observemos nosso setor com essa lente. O que acontecerá com a mobilidade, tal como a conhecemos, quando os poderosos equipamentos e soluções de conexão que vêm por aí permitirão às pessoas trabalhar remotamente? Há pouco estive com dirigentes de empresas de transportes coletivos, todos assustados com uma concorrência que até agora não enxergavam e, portanto, não esperavam: o compartilhamento de transporte e de veículos esvaziará linhas de ônibus rentáveis.

Como serão esses automóveis? Serão elétricos mesmo? Ou híbridos? Alugados ou de propriedade dos cidadãos? Autônomos? Se sim, como ficam as seguradoras, já que, teoricamente, não haveria mais acidentes? Você dirá: calma lá! Isso é para um futuro mais distante. E eu responderei que tenho me divertido muito contabilizando as previsões e os prazos estimados por especialistas – e que já furaram.

Apesar desse zeitgeist, e aconteça o que acontecer, sabemos que será preciso continuar apresentando resultados positivos amanhã de manhã. Sim, porque as organizações e seus altos dirigentes têm lidado com essa realidade líquida, carregada de vulnerabilidade e incertezas, simplesmente fazendo de conta de que não é com eles. “Não é aqui que isso acontecerá”, acreditam. Com aparente (mas evidentemente exagerada) objetividade e frieza, seguem cobrando resultados e excluindo colaboradores mais sensíveis que deixem entrever o quanto o novo cenário os afeta. Mal sabem eles que justamente essas pessoas poderiam guiá-los quando as comportas das mudanças se abrirem e a avalanche de perguntas sem respostas se abater sobre eles.

O que fazer então? A resposta possível não é a desejada. Não há solução clara para nossos medos e para as ameaças que caracterizam o zeitgeist que vivemos. Há apenas uma direção a seguir: nos prepararmos desenvolvendo enormemente nossa adaptabilidade. Sobreviveremos – profissionais e empresas – se nos tornarmos camaleões de nossa era. Se conseguirmos ser tão líquidos e mutáveis quanto tudo o que está em volta de nós. Não é fácil, mas é possível. As emoções que sentimos em períodos de agudas mudanças são, na verdade, previsíveis e gerenciáveis.

Traição, negação, crise de identidade e busca de soluções são as clássicas. Resta-nos estudá-las. E evoluir “camaleonicamente”.

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Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em inovação, e embaixador do Automotive Business Experience, o #ABX20, que acontece no dia 27 de maio.

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