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Opinião | Antônio Jorge Martins |

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Antônio Jorge Martins

31/08/2018

Que setor automotivo teremos no futuro

Nos anos recentes vimos surgir grande número de empresas voltadas à inovação disruptiva

A expectativa de disrupção de setores é um tema que atrai bastante os estudiosos, a sociedade e mesmo investidores interessados na possibilidade de criar novos modos de viver, desde que gerem benefícios para quem o oferece e para quem precisa deles.

Nos últimos anos vimos o surgimento de grande número de empresas voltadas à inovação disruptiva, ou seja, pensando de forma a ficarem em linha com os desejos e necessidades dos clientes, cada vez mais exigentes, antenados, impacientes e imediatistas. A fórmula utilizada durante vários anos de “facelift”, ou seja, de melhoria incremental dos produtos, não se sustenta mais para perpetuar as empresas. A disrupção gera vantagens competitivas para os negócios que dela se aproveitarão para a criação de novos hábitos e costumes para a sociedade.

Um segmento industrial que vem gerando estudos, pesquisas, questionamentos e grandes investimentos é o setor automobilístico mundial e suas possíveis transformações em relação àquilo que o mundo vivencia desde seu surgimento no século 19.

Apesar das incertezas que ainda cercam as áreas regulatórias, de criação de redes de abastecimento, da produção e da reciclagem de baterias, os veículos autônomos e elétricos são aqueles que geram a maior atratividade e interesse por aqueles que lidam, trabalham ou possuem fascínio pelo conhecimento ou pela curiosidade. Estes dois fatores deram margem ao surgimento da indústria da mobilidade, como os tradicionais fabricantes mundiais começaram a se posicionar perante seus clientes.

A vantagem hoje apregoada para a autonomia plena de veículos é a redução drástica dos erros humanos, principal causa de mortes em acidentes veiculares, enquanto os veículos elétricos se justificam pela diminuição de emissão de poluentes, dois dos principais focos de melhorias mundiais do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Adicionalmente, com veículos autônomos, poderemos ter três vezes mais carros em circulação no mesmo espaço, segundo estudos mundiais desenvolvidos, além da liberação de áreas de estacionamento.

Quanto às baterias de lítio, existem perspectivas de uma concorrência com as células de combustível com hidrogênio, que também exigem pesados investimentos em centros de distribuição.

Para se ter ideia do que poderão representar essas mudanças, os veículos autônomos plenos demandaram investimentos nos últimos três anos de cerca de US$ 80 bilhões, segundo estudos realizados pelo Brookings Institution, grupo de pesquisa norte-americano fundado em 1916.

Em relação a veículos elétricos, somente uma das maiores montadoras mundiais deverá investir US$ 86 bilhões até 2022, segundo comunicado oficial recente do respectivo board. Veículos produzidos pela Tesla se tornaram sonhos de consumo após testes por executivos ou mesmo por aqueles que realizam turismo em várias cidades mundiais.

Tendo em vista a representatividade do setor automobilístico para os inúmeros países em que está presente com suas plataformas industriais, bem como o patamar significativo dos valores envolvidos em pesquisa e desenvolvimento para o alcance dos dois maiores desafios para o setor que se acham destacados acima, torna-se uma meta destacar em que contexto tais mudanças deverão acontecer e as situações que se apresentam no mundo atual para que o sucesso almejado possa ser efetivamente alcançado.

Aspectos estratégicos: a indústria automobilística possui uma tradição na fabricação de automóveis, mas que diante do problema mundial reinante de mobilidade, tende a focar sua atuação nos próximos anos na prestação de serviços, que devem elevar sua representatividade na receita total das montadoras de pouco mais de 1% para 25% até 2025, segundo estudos de consultorias internacionais.

Cada vez mais a sociedade perde o senso de propriedade de veículos para focar na mobilidade necessária, onde um exímio prestador de serviços será uma peça indispensável no contexto. Não é à toa que a maioria das montadoras mundiais desenvolve parcerias com outras companhias ou mesmo incorpora em suas atividades o papel de prestador de serviços de mobilidade.

Projetos de novos veículos representam hoje investimentos de US$ 1 bilhão. Os produtos resultantes têm durabilidade aproximada de 12 a 14 anos e apresentam uma margem de lucratividade média na área automobilística compreendida entre 5% e 8% da receita.

Repara-se que os serviços, que em sua maioria se originam do aumento da conectividade de veículos, decorrem basicamente da transformação digital indispensável a todas as empresas atuantes no setor. Serviços possuem ciclo de vida bem curto e lucratividade de 45% da receita.

Aspectos organizacionais: a mudança de uma cultura empresarial centenária voltada para produtos e passando a focar em serviços demanda tempo e muitos sacrifícios, significando a necessidade de uma transformação brutal. A visão de negócios presente em todos os momentos, a necessidade de agilizar decisões, desenvolvimentos contínuos de seus executivos objetivando ter um maior número de talentos e a busca de menos formalidades representam os maiores desafios para que a empresas do setor tornem-se maduras no processo digital.

Para adaptar essa nova cultura indispensável para a sobrevivência das empresas, verificam-se hoje no Brasil esforços de montadoras no sentido de formar jovens executivos brasileiros para atuação como CEOs nas subsidiárias brasileiras, posicionamento este que reverte situações do passado em somente trazer profissionais do exterior para as posições de comando maior das organizações.

Aspectos tecnológicos: as grandes transformações visualizadas objetivam fazer com que os veículos atuem como um celular sobre rodas, passando a representar mais um meio de convivência, complementando a residência e o ambiente de trabalho. No futuro, o carro conectará os espaços de casa e do trabalho, tornando-se uma parte essencial da nossa vida diária, em vez de simplesmente ser um meio de chegar de A a B, sendo também mais uma opção de mobilidade.

Pode-se imaginar que os serviços a serem oferecidos pelos veículos tendem a se tornar o foco de atratividade dos clientes. Entender o caminho para o futuro fará parte da sobrevivência das empresas deste setor, precisando “adivinhar” quando ocorre a demanda, acarretando investimentos bem e malsucedidos, com a exigência de um retorno financeiro satisfatório para remunerar seus acionistas.

Aspectos mercadológicos: apesar das dificuldades relatadas, os consumidores a cada dia exigem inovações em menor espaço de tempo, principalmente de conectividade, design e motorização mais sustentável (menor consumo e poluição), requerendo para isso maior conhecimento do perfil de consumo de seus clientes e a realização de maiores volumes de investimento para atenderem às suas expectativas.

Estudos internacionais mostram que o surgimento dos carros autônomos deverá gerar uma expectativa de redução de 40% do mercado automotivo na Europa, Estados Unidos e China até 2040. O fato irá provocar um substancial aumento da disputa entre as empresas do setor, que contarão também com a participação de concorrentes como Apple e Google.

Aspectos financeiros: é imprescindível para as empresas atuantes no setor buscarem maiores valorações em seus negócios, de tal forma a obterem o capital indispensável para a sobrevivência no mercado. Cabe salientar que as “newcomers” Google e Apple já desfrutam de uma cultura digital indispensável para o setor, além de maior rentabilidade de seus negócios, fatores estes que devem gerar para elas um grau elevado de competitividade, caso confirmem sua penetração no citado mercado.

Não há como desprezar que fusões, associações, parcerias, alianças operacionais e/ou estratégicas, inclusive aquelas entre montadoras já existentes para o desenvolvimento de motores, representarão ações indispensáveis para um setor que passará por grandes mudanças em seus pilares estratégicos, organizacionais, tecnológicos, mercadológicos e financeiros.

Redução no número de ofertantes neste mercado deverá ser uma realidade que a cada dia mais se aproxima, de tal forma a permanecerem as empresas que apresentem a melhor relação custo-benefício para seus consumidores.

Cabe ainda ressaltar que anos atrás algumas consultorias internacionais já apregoavam como necessárias as mudanças estruturais em um mercado em ampla transformação como o automotivo.

Cumpre registrar que alterações dessa natureza já aconteceram em segmentos industriais como o de celulares e de televisores digitais, com o desaparecimento de fabricantes tradicionais como Nokia, Ericsson, Sony e Philips, dando margem ao surgimento ou fortalecimento de outros que passaram a oferecer maiores vantagens competitivas em seus mercados de atuação.

Assim sendo, não temos como deixar de lembrar a expressão que a mídia busca desenhar para o futuro do nosso país, trazendo para a nossa mente: “Que setor automotivo teremos no futuro”.

Antônio Jorge Martins é coordenador acadêmico de cursos automotivos na Fundação Getúlio Vargas (FGV)

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