Automotive Business
Siga-nos em:
AB Inteligência

Opinião | Valter Pieracciani | Inovação

Ver todas as opiniões
Valter Pieracciani

17/08/2018

Roma antiga tem muito a ensinar aos negócios de hoje

Há uma série de aprendizados sobre a brilhante gestão da inovação no império

Uma das missões mais desafiadoras que encontro como consultor devotado às práticas de inovação é convencer as pessoas de que todos somos capazes de inovar. Mais: de inovar com qualidade. A inovação não é o lampejo fugaz de uma mente brilhante; é resultado de um processo e advém, muitas vezes, da reflexão sobre um problema. Nas empresas, segue percursos estruturados, com a utilização de ferramentas e processos que motivam as equipes a buscar soluções para fazer melhor. No cotidiano de todos nós, ampara-se no desejo humano e instintivo de construir um mundo melhor.

Várias épocas da história da humanidade foram marcadas por forte inovação. Uma delas, que venho estudando em profundidade, foi a Roma antiga. Dessa extensa pesquisa, realizada em parceria com o colega Laurentino Bifaretti, engenheiro e estudioso incansável da história de Roma, nascerá em breve um livro mostrando que séculos antes de Cristo o Império Romano já aplicava muitos dos fundamentos da moderna gestão da inovação. Fundamentos esses que tantas empresas perseguem, ainda hoje – muitas sem sucesso. Refiro-me, entre outros pontos, ao trabalho em equipe, à relação obsessiva com a vitória, à capacitação permanente e ampla dos profissionais, à incorporação rápida de tecnologias emergentes.

No auge de seu vigor e prosperidade, o Império Romano cobria cerca de 6,5 milhões de quilômetros quadrados em três continentes: Europa, Ásia e África. Mais de 60 milhões de pessoas, de vários povos e raças, viveram sob seu governo, o que correspondia a um quarto de toda a população do planeta à época. A Roma dos imperadores foi a primeira grande metrópole da humanidade, com 1 milhão de pessoas – só no começo do século 19 outra cidade, Londres, se equipararia em número de habitantes. Do deserto do Saara às florestas da Alemanha, do Golfo Pérsico à Escócia, as legiões romanas chegaram a todos os lugares, superando adversidades e inimigos variados e construindo o império mais civilizado da história humana.

Os romanos conquistaram tudo isso porque dispunham das bases para garantir o sucesso em gestão da inovação, com valores e macroprocessos que ainda hoje provocam maravilhamento. Tinham um objetivo que perseguiam obsessivamente: mudar o mundo e tornar-se o maior império conhecido. Para cumprir essa missão que podemos chamar de “corporativa”, precisariam, por exemplo, de uma integração inteligente e progressiva dos povos conquistados e de garantia de mobilidade para seus exércitos. Construíram, então, uma rede de estradas que somava mais de 100 mil quilômetros, capaz de acelerar as conexões entre todas as províncias do império. Eram feitas de modo a resistir a mudanças climáticas – inclusive a inundações – e exigiam pouca manutenção. Muitas ainda existem, mesmo dois milênios após a decadência do império.

Essa densa teia de comunicações tinha como objetivo facilitar a circulação dos exércitos e de seus suprimentos, mas também estimulou as trocas comerciais e culturais. Afinal, com um império tão vasto, mobilidade era uma questão-chave para os romanos. Uma das obras mais espetaculares foi a ponte do Danúbio, construída pelo imperador Trajano para conectar a atual Sérvia à Romênia. Tinha 1135 metros de extensão, 18 de altura e 12 de largura, com arcos triunfais e portões monumentais para lembrar a grandiosidade de Roma.

Os romanos também compreenderam, muito antes de tantas empresas do presente, o valor das inovações de significado, aquelas que se baseiam não em tecnologia, mas em emoções. Antes das batalhas, os soldados romanos tinham o costume de se barbear. Além disso, paramentavam-se para a guerra como se fossem para uma celebração. O objetivo, sutil e eficaz, era entrar no campo de batalha com a autoestima lá no alto, intimidando os exércitos adversários – muitos constituídos por guerreiros mais altos e mais fortes – com sua simples presença. Anteciparam um movimento de algumas organizações do século 21, de criar vínculos com seus clientes por meio de experiências apaixonantes. Um exemplo atual é a locadora Movida, que comprou uma frota colorida e passou a oferecer a locação carbon-free. Num segmento marcado pela indiferenciação, o de aluguel de veículos, ela tocou o coração dos clientes e vem lucrando com isso.

Porém, mesmo em se tratando de tecnologia, os romanos estavam muito adiante. Uma pesquisa recente reunindo cientistas norte-americanos, chineses e italianos, sob a coordenação da Universidade Berkeley em São Francisco, analisou a composição química da argamassa utilizada em obras de alvenaria da Roma antiga. Descobriram que as reações químicas entre seus componentes não apenas dotavam o material de grande resistência, comparável à de muitos cimentos de hoje, mas também causavam menor impacto ambiental graças à baixa emissão de CO2 para a atmosfera. Milênios depois, talvez essa descoberta possa abrir caminho para a produção de novos materiais de construção, duráveis e ecoamigáveis. Inovação na veia, e em estado bruto.

Com tantas qualidades, é natural que nos perguntemos: por que o Império Romano ruiu? Muito se fala sobre a erosão provocada pelas invasões bárbaras, mas a verdade é que Roma se desintegrou aos poucos, de dentro para fora, e (não por coincidência) justamente quando as crenças e as bases da gestão da inovação foram se perdendo. Abriu-se, assim, cada vez mais espaço para corrupção, abusos, conflitos e distanciamento dos povos vizinhos. As invasões bárbaras foram somente a gota que fez transbordar um império em profunda crise de gestão. Mesmo em sua decadência Roma tem muitas lições a oferecer às organizações de hoje.

Comentários

  • AntonioCarlos Machado

    Valter,muito bom seu texto e correlacionando as maravilhosas criações militares romanas com as atitudes e comportamentos dos empresários em nosso século 21, sua análise está perfeita , e na minha humilde opinião o Império Romano foi sendo fragmentado aos poucos pois não resistiu a real possibilidade do general distante de Roma possuir seu próprio feudo a partir de seu qualificado exercito aquartelado em seu domínio. Abraço e Obrigado.

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

AB Inteligência