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Opinião | Joel Leite |

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Joel Leite

17/07/2018

O “carro a sol” da FCA

Placas fotovoltaicas no teto ajudam a reduzir consumo. Proposta é da área de inovação da empresa, incumbida de “pensar diferente”

O teto é a maior e mais plana parte do carro. Diferentemente das laterais (com as portas), da traseira (porta-malas) e da dianteira (capô e motor), não sofre interferências, está o tempo todo sob a luz solar durante o dia. Então, por que não utilizar essa aptidão para captar a energia do sol?

A proposta saiu da área de inovação da fábrica da FCA (Fiat Chrysler Automobiles) em Betim (MG) há três anos e já apresenta resultados positivos. A montadora instalou placas com células fotovoltaicas no teto de 30 carros, que inicialmente rodaram somente no interior da planta e numa segunda etapa nas ruas. Trata-se, ainda, de uma experiência, mas com a queda dos preços dos painéis de captação da energia solar, é possível que o sistema seja adotado comercialmente.

Não, a energia captada pelos painéis não vai substituir o combustível usado para a propulsão do motor. Não se trata de um carro elétrico, longe disso. O objetivo da tecnologia é a economia do consumo e das emissões de poluentes: a energia solar é usada nas luzes do painel e faróis, vidros elétricos, ar-condicionado.

Nos testes feitos até agora foi obtida uma economia de 3,5% no consumo, um índice bastante significativo, quase o dobro do obtido por processo semelhante na Europa, onde a economia foi de 2%. Isso graças não ao sistema em si, mas ao maior nível de radiação solar existente no Brasil. O País tem potencial solar 70% maior. Aqui são 205 Watts por metro quadrado; na Europa são 120 W/m². No sol de meio dia no Verão, o potencial no Brasil sobe para 1.100 W/m².

Matheus Bitarães é analista de pesquisa e inovação da FCA e faz parte do time de pesquisadores do projeto Girassol, que testa as placas fotovoltaicas nos tetos dos carros. “Inovação é enxergar as coisas de uma forma diferente; fazer o diferente”, diz Bitarães, responsável pelo desenvolvimento de ideias que surgem na própria empresa e que contribui para o melhor procedimento na linha de montagem, no processo produtivo, na manutenção da fábrica.

Mateus Silveira, responsável pela área denominada Future Insights, diz que “pensar diferente” é uma forma de buscar soluções para a produção e o uso do carro. Destacou que inovação não é apenas um novo sistema de condução, de conectividade ou de segurança, mas inovar é também o modo de pensar e de agir.

“Inovar não é apenas criar uma tecnologia, mas entender e melhorar a vida do consumidor, como uma ação junto ao mercado, como a garantia do preço do carro e da entrega na data marcada.

Silveira estuda o futuro das populações urbanas. Selecionou as 38 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes e se debruça na resolução dos problemas de mobilidade, advindos do adensamento populacional. Busca alternativas para novas formas de circulação, novos modais. E aí entra a questão de pensar diferente e não apenas a aposta nas novas tecnologias.

“O carro elétrico e o carro autônomo são as tecnologias do momento, e que já estão nas ruas, mas o problema é que tanto o elétrico quanto o autônomo provocam congestionamento do mesmo jeito”, disse, avaliando que é preciso pensar em soluções que essas novidades não se propõem a sanar.

Para Silveira, os sistemas de inovação têm de ser diversificado: “Não basta criar um veículo ideal; temos de pensar no pedestre, todos nós somos pedestres pelo menos uma parte do dia. O espaço de maior valor é o espaço público”, diz.

E tem de oferecer alternativas próprias: “Não dá pra importar soluções. Temos de criar nossos próprios modelos”, destaca.

Numa palavra, a proposta é buscar soluções dentro do âmbito das cidades e não achar que o aumento da infr estrutura vai resolver os problemas. Ao contrário, quando o poder público abre mais uma avenida, mais um túnel, mais um viaduto, incentiva o uso do carro e a consequência não é a redução dos congestionamentos, mas a ampliação deles.

“Ampliar a infraestrutura é como resolver o problema da obesidade afrouxando o cinto”, diz Mateus Silveira.

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Este artigo foi publicado originalmente na Agência Autoinforme
joelleite@autoinforme.com.br

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