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Mari Martins

03/07/2018

O segredo para levar igualdade a ambientes majoritariamente masculinos

Para assumir posição de liderança, muitas mulheres reproduzem inconscientemente características dos homens. É hora de valorizar o feminino

O empoderamento feminino nas empresas é tema de discussão em diferentes contextos. Atualmente, fala-se muito da presença da mulher no mercado de trabalho e da importância de lideranças mais diversas entre os gêneros. Dados do IBGE mostram que 47% da força de trabalho é feminina, mas apenas de 13,6% de mulheres ocupam cargos de alta liderança, segundo o estudo “Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas”, do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Esta realidade deixa questões de grande relevância em aberto: as mulheres estão mudando a visão predominante do mercado de trabalho? Como as características femininas podem transformar o mundo corporativo? É possível que mulheres tenham sucesso em ambientes predominantemente masculinos?

As respostas têm muito a ver com o fato de que a cultura de um ambiente costuma ser a da maioria. Regina Madalozzo numa pesquisa com o Insper, Movimento Mulher 360º, ONU Mulheres e PriceWaterHouse Coppers indica que é necessário mais de 30% de diversidade em um grupo, caso contrário a cultura que prevalece é a do grupo maior. Seguindo essa lógica, naturalmente, predomina no mercado de trabalho a visão masculina. Isso fica claro na história da Gabriela, coordenadora de uma grande empresa que participou de treinamentos de aperfeiçoamento e de coaching aqui na Duomo com foco no seu autoconhecimento e desenvolvimento. Importante destacar que o nome é fictício para não expor a personagem real desta história.

As pessoas envolvidas com Gabriela no trabalho a consideravam muito direta, forte e com tendência a “passar por cima de tudo e todos como um trator”. Também a avaliavam como agressiva e diziam que ela se colocava de forma autoritária. Por isso os outros colaboradores raramente questionavam suas decisões e opiniões. Gabriela também se cobrava demais. Se recebia um elogio, acreditava que ainda precisava melhorar. Focada em desafios e atingir metas, tinha dificuldades em lidar com erros. Sua capacidade de entrega, comprometimento e inteligência eram indiscutíveis.

“Por eu ser muito jovem, acabei bloqueando a intuição e as emoções. Tentava esconder os medos. Eu não queria mostra fragilidade ou o fato de ter demandas pessoais por ser mãe. Jamais saia mais cedo para buscar meu filho na escola ou leva-lo ao médico. Na primeira gravidez fiquei um mês de licença e comecei a trabalhar de casa. Eu tinha medo de voltar e não ter o meu espaço garantido. Na frente dos colegas, bloqueava tudo isso para não dar a impressão de que não daria conta das minhas responsabilidades”, confessou Gabriela durante uma de nossas conversas.

As principais qualidades femininas são intuição, emoção, pensamento circular e espírito colaborativo. Não são qualidades da mulher. São características presentes nos homens e nas mulheres mas teoricamente encontradas com mais frequência nas mulheres. No caso da Gabriela essas qualidades desapareceram no seu comportamento no trabalho. Isso acontece com muitas outras mulheres que estão em busca de realizações profissionais no mundo corporativo.

Na batalha por espaço nestes ambientes, elas começam a reproduzir o modelo masculino. O natural é que, por esse modelo não fazer parte da essência destas pessoas, alguns comportamentos acabam ficando um pouco distorcidos.

“Quando entrei na empresa eu só tinha contato com homens. Eu era muito nova e eles diziam: ‘fala, menina’. Aquilo soava como uma crítica, como se eu fosse menos preparada que os rapazes. Eu lembro que cortei o cabelo mais curto para parecer mais velha”, diz Gabriela.

A chave para iniciar o processo de transformação pessoal e profissional é resgatar como construímos nossa identidade e o autoconhecimento. Foi isso que Gabriela fez e os resultados foram positivos não apenas para ela, mas para toda sua equipe.

“Atualmente minha atuação é muito diferente. Identifico claramente os meus valores e sei que eles estão presentes na minha vida pessoal e profissional. Tudo isso tem me feito sentir mais forte e integrada comigo mesma e ao ambiente em que trabalho. Entendi que a minha força está em realizar, resolver os problemas, influenciar para que o time trabalhe em prol do mesmo objetivo. Feedbacks construtivos podem gerar amadurecimento. Posso pedir ajuda para construir alianças e para lidar com obstáculos, aparentemente intransponíveis”, explica, contando a importância de sua transformação.

No relato do contexto atual de Gabriela percebe-se a presença das qualidades do feminino: empatia, capacidade de construir alianças para atuar de modo colaborativo e uma liderança baseada em valores. O resultado foi tão positivo que Gabriela foi convidada para assumir um cargo na diretoria na empresa. O feminino é a mudança que queremos ver no mundo. Vamos dar valor a ele.



Mari Martins é empresária na área de desenvolvimento humano na Duomo Educação Corporativa. É diretora, coach e facilitadora de treinamentos em médias e grandes empresas.

Este artigo foi publicado originalmente no site do projeto Presença Feminina no Setor Automotivo, iniciativa que visa gerar conhecimento e estimular a participação da mulher nesta indústria.

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