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Cristina Kerr

04/06/2018

O que faz da Islândia e de Ruanda países tão igualitários?

Brasil, por outro lado, ocupa a 90ª posição do ranking do Fórum Econômico Mundial

O Fórum Econômico Mundial divulga anualmente o índice de igualdade de gênero, que classifica 144 países de acordo com as condições sociais para homens e mulheres.

Para chegar na pontuação final são considerados aspectos como saúde, sobrevivência, participação e oportunidade econômica, realização educacional e empoderamento político de homens e mulheres.

Para nossa tristeza, o Brasil caiu nove posições e ficou com o 90o lugar em 2017. Os maiores impactos para as mulheres do país são:

- Falta de representatividade na esfera política.
- Diferença salarial: a renda média das mulheres corresponde a 58% da remuneração dos homens.

O Brasil também ficou atrás de diversos vizinhos latino-americanos como a Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai.

Apesar da performance fraca, o Brasil se destacou positivamente ao diminuir a diferença de gênero na saúde e na educação. As mulheres têm estudado mais do que os homens.
Os cinco países com maior igualdade de gênero são: Islândia, seguido por Noruega em 2o lugar, Finlândia em 3o, Ruanda em 4o lugar e Suécia em 5o colocação.

Os três primeiros são países nórdicos conhecidos por suas políticas igualitárias. Mas você notou a Ruanda em 4º lugar? O país africano tem pouco mais de 11 milhões de habitantes e, em 1994 sofreu um genocídio, quando extremistas mataram mais de 800 mil pessoas e estupraram 500 mil mulheres.

Depois desta barbárie, o país vem se reconstruindo e o governo tem empoderado as mulheres, encorajando-as a assumir papéis no setor político e econômico.

Ruanda é o primeiro país do mundo a ter maioria feminina no parlamento: 61,3% dos assentos estão ocupados por elas. Para efeito de comparação, a média mundial é de 21,9%> No Brasil este número é ainda mais baixo: temos apenas 10,7% das cadeiras do legislativo ocupadas por mulheres.

Na Constituição de 2003 Ruanda estabeleceu igualdade de gêneros na educação, na economia, na posse de terras e inseriu 30% de cotas no parlamento e, assim, conseguiu aumentar o número de mulheres na política e chegar a resultados tão bons.

A nação também criou conselhos locais exclusivamente femininos que cuidam de assuntos como educação, saúde e segurança pessoal. Elas ocupam diversos postos de decisão, dando grande contribuição à política e economia do país.

COMO FUNCIONA O PAÍS MAIS IGUALITÁRIO DO MUNDO



Já a Islândia é o melhor país do mundo para as mulheres viverem e tem um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. Tudo começou no dia 24 de outubro de 1975 com uma greve feminina. As islandesas se recusaram a trabalhar, cozinhar, limpar e até mesmo cuidar dos filhos.

O objetivo da paralisação era destacar a força produtiva feminina e fazer um apelo para que os homens as respeitassem e para que ganhassem os mesmos salários que eles.

No dia da greve, 90% delas pararam de trabalhar e de fazer as tarefas domésticas. Com isso, os homens puderam experimentar as dificuldades cotidianas das mulheres e se conscientizaram sobre a necessidade de um equilíbrio entre direitos, salários e compartilhamento de funções.

Em 1980, a primeira presidente mulher da Europa foi eleita na Islândia, Vigdís Finnbogadóttir. Este fato teve um efeito profundo naquela geração. Ter uma mulher na esfera de maior poder, à frente de uma nação, quebrou diversos paradigmas e fortaleceu a Islândia. E isto repercute até os dias de hoje.

Desde 2000 o país oferece licença parental de nove meses remunerados (80% do salário). As mulheres saem os primeiros três meses, os homens os próximos três meses, e o trimestre seguinte pode ser compartilhado como eles quiserem. Noventa por cento dos homens saem de licença. Assim eles exercem a paternidade, cuidam das crianças e aprendem a compartilhar a jornada de trabalho com suas parceiras.

As mulheres na Islândia são extremamente qualificadas, e muitas ocupam cargos de alta liderança. Elas não abrem mão de suas carreiras para terem filhos: elas fazem as duas coisas, trabalham e cuidam dos filhos.

Em 2009 a primeira ministra islandesa, Johanna Sigurdardottir, foi a primeira chefe de Estado do mundo assumidamente lésbica. No final de 2017, a Islândia ganhou sua segunda primeira ministra, Katrín Jakobsdóttir, mãe de três filhos pequenos, com 41 anos de idade.

Em janeiro de 2018, o país tornou-se o primeiro do mundo a fazer com que as empresas provem que estão pagando salários iguais para homens e mulheres. Portanto é ilegal oferecer remuneração mais alta a homens que exerçam as mesmas funções das mulheres. As empresas estão correndo contra o tempo para cumprir com a nova lei e evitar multas.

Nossa maior lição com a Islândia é que o compartilhamento de tarefas entre os gêneros permite que elas tenham ascensão na carreira. A segunda lição é a importância de role models, modelos de mulheres em todas as escalas de poder para inspirar e incentivar outras mulheres. A terceira lição é a importância de leis e ações afirmativas que busquem a igualdade de gênero.


Cristina Kerr é especialista em diversidade e equidade de gênero e CEO da CKZ Diversidade. Formada em Publicidade e Propaganda pela FAAP com MBA na FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, Pós-MBA em Formação de Conselheiras pela Saint Paul Escola de Negócios, cursa mestrado em Sustentabilidade na FGV.

Este artigo foi publicado originalmente no site do projeto Presença Feminina na Indústria Automotiva, iniciativa que visa gerar conhecimento e estimular a participação da mulher nesta indústria.

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