ANÁLISE

INOVAÇÃO

Confiança e colaboração valem mais do que tecnologia


Indústria automotiva precisa abrir os olhos para novas formas de trabalhar


Um dos principais movimentos da atualidade no mundo da gestão é o de engajamento das empresas com startups. Por todo lado se veem iniciativas das corporações mais inovadoras nesse sentido. Semanas da inovação aberta, desafios lançados nos portais das indústrias, hackatons (maratonas de prototipagem e colaboração organizadas por empresas) e uma série de tentativas de construir dinâmicas que proporcionem às grandes organizações a velocidade e a potência de inovação que é marca registrada das empresas iniciantes.

Parece que nos esquecemos disso, mas o setor automotivo, para o qual alguns jovens olham hoje com indiferença, foi o puxador de uma série de grandes inovações aplicadas em modelos de gestão. A revolucionária linha de montagem; mais tarde, as células de produção originárias da Suécia; as técnicas do just in time, do lean e muitos outros conceitos que revolucionaram todos os setores da indústria no mundo nasceram, de verdade, nas fábricas de automóveis e caminhões.

A indústria automotiva, portanto, fez escola em modelos avançados de gestão. Porém, alguma coisa aconteceu e, a meu ver, esse setor acabou perdendo a dianteira de uns tempos para cá. Voltemos, por exemplo, aos movimentos atuais de engajamento de empresas e startups. Olhemos para a tendência, que ganha corpo, de estruturas organizacionais abertas, também chamadas pelo nome sexy de Open Corporations (open corp) ou ainda Corp ups, referindo grandes empresas conectadas a startups.

Há cerca de 20 anos, a indústria automotiva inventou o modelo de condomínio e de produção compartilhada envolvendo os chamados sistemistas e as montadoras. Todos nos lembramos do choque de avanço que foi a inauguração da fábrica de caminhões da VW em Resende, no interior do Rio de Janeiro. Nossa! Indústrias de outros setores vieram aprender com as soluções e arranjos organizacionais implementados pelo setor automotivo, entre elas a de bebidas e alimentos, a de aviões e muitas empresas de serviços. Tanto é verdade que muitos executivos egressos do segmento passaram a comandar operações em outras áreas com extraordinário sucesso. Implantando mudanças que eram elementares para eles, mas que revolucionavam o jeito de produzir em outras plantas.

A indústria da mobilidade poderia, portanto, estar em posição de líder na atual onda das corporações abertas. Poderia já estar estruturada completamente em rede, conectando centros de pesquisa, universidades, fornecedores, clientes, quem sabe concorrentes e, principalmente, especialmente, as startups... Mas não é bem assim. Pior, parece que os modelos inovadores do passado não geraram nem a metade dos benefícios globais que poderiam ter proporcionado. Por que isso não aconteceu? Já se fez essa pergunta?

Arrisco dizer que faltou um ingrediente que é essencial para a evolução dos sistemas abertos e das organizações em rede. Dei a ele o nome de C2: confiar e colaborar. Sem C2, os modernos modelos, qualquer que seja o arranjo de gestão, não atingem o máximo de seus resultados. Especificamente no setor automotivo, a confiança esteve no campo oposto ao avanço na gestão. Na velocidade e simplicidade de um e-mail, as montadoras têm há anos colocado de pernas para o ar planos pactuados ao impor pesados ajustes aos fornecedores. Se não cumprirem, multas... Nesse clima, os fornecedores tentam se proteger das perdas como podem e com as ferramentas que tiverem. Convenhamos, não é um bom exemplo de rede aberta e colaborativa.

Em movimento diametralmente oposto, o Google que, diga-se de passagem, já é concretamente o maior competidor/algoz da indústria automotiva, cria modelos 100% baseados na confiança e colaboração. Como, por exemplo, o novo YouTube Space, espaço de 3.000 metros quadrados para youtubers inaugurado no Rio de Janeiro (o segundo maior do mundo, só atrás do de Los Angeles). Lá ficarão à disposição equipamentos de última geração, tecnologias e estúdios para que talentos criem seus filmes e conteúdos, além de salas de aula onde o Google oferecerá cursos permanentes para que os profissionais se aperfeiçoem e melhorem a qualidade de suas criações. Com mais qualidade, as pessoas ficarão mais tempo em frente das telinhas e assim elevarão as receitas dos criadores e do próprio YouTube, que vive da publicidade. Uma lógica de negócios diferente do comprar ao menor preço, montar e vender.

Bem, esperemos que esses acontecimentos sirvam como toque de despertador para outros setores, inclusive o automotivo. Que provoquem e desencadeiem as mudanças que nos manterão vivos nessa nova economia, na qual a tecnologia vale muito menos do que uma boa dose de confiança e colaboração nas relações.

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