ANÁLISE

Tecnologia

O desafio da cibersegurança nos carros autônomos


Solução está em aproveitar melhor infraestrutura já existente


Clarence Hempfield

Os veículos autônomos estão entre as tecnologias recentes mais comentadas. Desde que Tesla, Google e Uber colocaram esses veículos no mapa de tendências para consumidores tenho sonhado com o dia em que poderei ter um. Infelizmente para mim e para a indústria automotiva, esse dia pode não chegar tão cedo.

O repórter da Wired, Andy Greenberg, realizou uma experiência ao pilotar um veículo Jeep Cherokee e simular um sequestro cibernético. Enquanto ele dirigia o carro, dois pesquisadores baseados em St. Louis agiram como sequestradores e hackearam o sistema computadorizado do veículo. O que começou como o sequestro do controle do motorista sobre o ar-condicionado e a música, terminou com o acelerador desabilitado e um condutor sem qualquer controle sobre o veículo.

O experimento mostrou o quão fácil pode ser para um profissional experiente hackear um carro e chamou a atenção de consumidores e autoridades. No ano passado, a Administração Nacional de Segurança de Transporte Rodoviário dos Estados Unidos, a NHTSA, divulgou normas afirmando que a segurança cibernética deve ser prioridade dos fabricantes. O grande problema é que os hackers sempre encontrarão uma forma de contornar as mais recentes barreiras de segurança. O que é crítico no novo mundo de dispositivos constantemente conectados, particularmente nos autônomos, é que precisamos adotar uma visão holística da segurança cibernética que vá além de uma criptografia mais complexa.

VULNERABILIDADE DOS DISPOSITIVOS CONECTADOS
Presumindo que os problemas de segurança cibernética possam ser resolvidos ao longo dos próximos anos, os veículos autônomos se tornarão uma das maiores plataformas para a Internet das Coisas (IoT). Da mesma forma que outros dispositivos com recursos do gênero, como telefones móveis e rastreadores de atividades físicas vestíveis, os automóveis também gerarão dados a partir dos consumidores que influenciarão a maneira como as empresas, governos e outros formadores de políticas operam. Assim, como a maioria dos dispositivos IoT, as infraestruturas de software e os dados gerados pelos veículos autônomos também se tornarão mais expostos aos riscos.

Um levantamento recente feito pela resseguradora Munich Re, apontou que 55% dos gerentes de riscos corporativos entrevistados apontaram a segurança cibernética como a principal preocupação para os veículos autônomos. E 64% das empresas disseram se sentir totalmente despreparadas para garantir cibersegurança.

Os fabricantes investem bilhões de dólares no desenvolvimento de veículos autônomos, mas se não conseguirem manter os carros e seus motoristas seguros, eu nunca terei um desses veículos na minha garagem. Enquanto a NHTSA não tem todas as respostas para as ameaças de segurança cibernética, os fabricantes de veículos podem olhar sob o capô de seus próprios veículos para encontrar uma potencial solução.

REIMAGINANDO O GPS
Os dispositivos da era IoT geram uma grande quantidade de dados, incluindo informações baseadas em localização. Esses dispositivos – que hoje pode ser o seu smartphone, mas no futuro poderá ser o seu carro – podem, com a anuência do consumidor, capturar informações de localização que podem incluir tanto seus movimentos, quanto o que você está fazendo em cada ponto da sua jornada.

Os veículos autônomos poderão capturar e utilizar dados baseados em localização, que podem ser analisados para identificar comportamentos como o movimento, a velocidade e o tempo médio de viagem e até a proximidade com outros objetos, veículos e lojas. Esses dados baseados em localização oferecem a consumidores e empresas o potencial de revelar muitas informações. Os varejistas já estão aproveitando os dados gerados pelos carros para informar as suas ofertas, e o setor público está usando os dados para projetos de melhorias e planejamento do transporte de cargas e de pessoas.

Os consumidores também estão se beneficiando desses dados hoje mesmo, evitando engarrafamentos, ou reduzindo o valor de seus seguros pelo bom comportamento de condução. Mas o benefício mais notável dos dados baseados em localização é que eles também podem ser usados para descobrir anormalidades em comportamentos, o que ajudaria a detectar e limitar as ações tomadas pelos hackers.

Por exemplo, quando aparecer um símbolo de perigo no seu painel, os dados que o seu carro gera estão dizendo ao sistema que existe um problema - talvez a pressão do pneu esteja baixa, você precise trocar o óleo ou uma porta não foi completamente fechada. O seu veículo sabe como deveria operar e, se os dados sugerirem que ele não está funcionando como deveria, você é alertado imediatamente pela luz de perigo.

Teoricamente, o mesmo tipo de infraestrutura de alerta em tempo real pode ajudar a resolver ameaças de segurança cibernética e roubos mais tradicionais, que poderia levar a ofertas novas ou ampliadas pelas organizações de monitoramento de veículos. Se os motoristas permitirem que essas organizações ou oficiais de segurança monitorem a localização de seus veículos e tenham uma visão completa dos comportamentos típicos do motorista, os oficiais podem ser alertados imediatamente sobre qualquer ação diferente das expectativas – e até desligar o veículo em uma situação de emergência.

Ou seja, se um carro estiver com uma velocidade não compatível com a via ou avançando sinais vermelho, os funcionários podem desligar o sistema computadorizado para impedir um hacker em potencial e restaurar o veículo para um estado seguro de condução.

Ao aproveitar as informações existentes, os fabricantes de veículos podem melhorar um pouco sua infraestrutura baseada em localização e nos diagnósticos internos – ao mesmo tempo em que resolvem os potenciais problemas de segurança cibernética e de roubo de veículos.

O FUTURO DOS VEÍCULOS SEM MOTORISTAS
Ninguém tem a resposta para resolver essa crise com potencial de múltiplos bilhões de dólares que os fabricantes de veículos estão enfrentando, mas acredito que a solução pode ser encontrada no aproveitamento da infraestrutura baseada em localização já existente. Vivemos em um mundo onde a tecnologia evolui rapidamente e a maioria das empresas não possui o tempo ou o dinheiro para reinventar a roda toda vez que algo novo surge no mercado. Nesse cenário, as fabricantes de veículos já possuem os recursos instalados para coletar e usar dados baseados em localização e têm conseguido capitalizar essas capacidades com indústrias que se beneficiam dos mesmos dados. O mesmo modelo poderia ser aplicado para a cibersegurança.

Soluções e conclusões geradas a partir de dados baseados em localização passaram para além de algo desejável para algo necessário para manter os motoristas seguros quando eles estiverem dentro de um veículo autônomo.

*Clarence Hempfield é vice-presidente de Inteligência de Localização da Pitney Bowes.

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