ANÁLISE

Trabalho

O homem pode ficar obsoleto


Com automação crescente, profissionais precisam fazer a transição para as profissões do futuro


Ricardo Pazzianotto

“A crescente substituição do trabalho humano humano pelas máquinas provocará o desaparecimento da metade das ocupações hoje existentes” Erik Brynjolfsson.


A tragédia do século tem nome: chama-se desemprego. Afeta, sobretudo, trabalhadores dos países industrializados com elevado contingente de mão de obra assalariada. Estatísticas divulgadas por organizações especializadas revelam que o desemprego pode ir de 0,20% no pequeno e rico Catar, a 54% no Djibuti. Na Espanha alcança 19,9%, na Itália 11,40%, na Alemanha 4,20%, no Reino Unido 4,90% e Japão 3,10%. Os mais atingidos, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), são jovens entre 16 e 24 anos de idade.

Convivemos com elevadas taxas de desocupação desde a década de 1980. Breves períodos de prosperidade são sucedidos por pesados anos de retração. Assim ocorreu com o Milagre Brasileiro, no governo do presidente Garrastazu Médici (1969 a 1974) e nos primeiros meses do Plano Cruzado (1986). No Brasil o desenvolvimento industrial deu os primeiros passos no Estado Novo de Getúlio Vagas (1937 a 1945), e ganhou intensidade sob a presidência de Juscelino Kubitscheck (1956 a 1961), construtor de Brasília e responsável pela implantação da indústria automotiva. Jamais, porém, conhecemos desenvolvimento contínuo e sustentável.

Segundo as estatísticas, temos 12 milhões de desempregados. No curto espaço de um ano, desapareceram 2,2 milhões de postos de trabalho. Desempregados, subocupados e inativos somam mais de 22,5 milhões. Parte da responsabilidade cabe à política econômica do PT. Outros fatores, entretanto, contribuem para a crise. O aumento acelerado da população é um deles. Outro é a irreversível globalização. Por último o célere avanço da automação e dos sistemas informatizados de produção.

Tomaremos a indústria automotiva como ponto de partida para análise do desemprego. Em 1957, segundo dados da Anfavea, 9.773 empregados celetistas produziram 30,5 automóveis de passeio, comerciais leves, caminhões e ônibus. Em 1986 o número de trabalhadores alcançou o total de 129,2, para fabricação de pouco mais de 1 milhão de unidades. Em 2013, quando a produção nacional atingiu o pico, foram montados 3,73 milhões de veículos por 135,3 trabalhadores. Ao examinarmos o período entre 1957 e 2015 percebemos que, enquanto a produção subiu anualmente em média 7,9%, o número de trabalhadores cresceu apenas 4,3%. Com a abertura do mercado interno às importações em 1990, exigindo das empresas instaladas no País investimentos em produtos e novas tecnologias, o incremento anual da produtividade (número de veículos por empregado), que era da ordem de 7/8 sobe a 10 até alcançar 27 a 30 veículos por funcionário. Os segmentos mais atingidos pela tecnologia são a agricultura e o agronegócio. A combinação de tratores, colheitadeiras e carretas extermina empregos permanentes e mão de obra sazonal ou safrista, os chamados boias-frias.

Com o uso intensivo da tecnologia da informação as empresas passaram a obter melhores resultados sem o correspondente aumento do número de trabalhadores. É o que se percebe nos países de industrialização de ponta, e confirmam os dados relativos à nossa indústria automobilística. Ampla literatura nos adverte, desde os anos 80, acerca do desemprego tecnológico, cujas vítimas não conseguem voltar ao mercado, senão em menor porcentagem. Boa parte é atacada pelo obsoletismo e cai em desuso, condenada a viver à margem do mercado regular de trabalho.

Para manter-se viva, no mundo globalizado, as indústrias devem estar adiante do seu tempo. As nossas se atrasaram, encareceram e perderam competitividade. Mudança é a lei da vida econômica, ensinou Galbraith. A proteção em face da automação, prevista no art. 7º, XXVII, da Constituição, não deve ser levada a sério como tentativa inútil de opor barreiras à tecnologia de última geração. Foi disso que se cogitou na década de 70, quando dirigentes sindicais se opuseram à introdução de robôs nas linhas de montagem da indústria automotiva.

O art. 1º do Decreto nº 7.618/2012 determina que “O Programa de incentivo à inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores – Inovar-Auto tem como objetivo apoiar o desenvolvimento tecnológico, a inovação, a segurança, a proteção ao meio ambiente, a eficiência energética e a qualidade dos veículos e das autopeças, nos termos deste Decreto.” As diretrizes destinadas a compatibilizar desenvolvimento com geração de empregos estão ali lançadas. O fundamental é que lhes seja dado cumprimento. Nada disso, entretanto, será suficiente se, paralelamente, não for modernizada a anacrônica legislação trabalhista e redirecionado o programa educacional, dando prioridade às carreiras voltadas às profissões do futuro.

A moderna tecnologia, produto de pesquisas científicas, sempre é bem vinda. Todas as cautelas, porém, são necessárias para que o trabalho do homem não se torne redundante na expressão de Zygmunt Bauman, ou venha a ser descartado como ferramenta obsoleta.

Comentários: 1
 

Almir Paribello
22/11/2016 | 07h02
Prezado Ricardo, bom dia! Muito bom os comentários. Venho aplicando e explicando estas ações aos nossos empregados. Grande abraço.

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