ANÁLISE

INOVAÇÃO

Equilíbrio é essencial para a cadeia automotiva


Empresas começam a pagar o preço por pressionar fornecedores em excesso


O padrão e os resultados dos ciclos de negociação em curso entre clientes e fornecedores da cadeia automobilística trazem à nossa mente uma história antiga, porém elucidativa. Ela envolve o grande comandante Pirro, rei de Épiro, região que corresponderia hoje, grosseiramente, a territórios da Albânia e Grécia. Pirro foi um dos maiores estrategistas militares da antiguidade. Há historiadores que o colocam em um segundo lugar entre os maiores da história, logo abaixo de Alexandre Magno. Dizia-se que a guerra era sua principal razão de viver.

O curioso é que essa mesma frase poderia perfeitamente ter saído, hoje em dia, da boca de qualquer fornecedor ao deixar uma reunião com os jovens e vigorosos comandantes de áreas-chave das montadoras e sistemistas. Sobretudo se a tal reunião tratasse de renegociação de preços.

Voltemos à Roma antiga. Aproximadamente em 280 a.C., Pirro queria comandar a Itália. Atravessou o Adriático no comando de 400 navios e atracou em Taranto, decidido a dar combate aos romanos. Vinha à frente de um exército bem treinado de 20 mil homens pesadamente armados, 3 mil cavaleiros, 2 mil arqueiros, 500 fundeiros e – surpresa absoluta para seus adversários – 20 elefantes, animais nunca antes enfrentados pelos romanos. Foram horas e mais horas de luta sangrenta.

Pirro sagrou-se vitorioso, porém foi uma vitória inútil. Venceu pagando um preço muito alto: havia perdido a maioria de seus generais, muitos deles seus amigos íntimos, e seus melhores homens, que não teria como substituir. Quando um aliado o felicitou pela conquista, disse uma frase que ficou famosa: “Outra vitória como essa e estarei totalmente arruinado”.

Na nossa analogia com os dias de hoje, montadoras e sistemistas equivaleriam às forças de Pirro. Em sua busca obstinada por resultados e competitividade, elas passaram os últimos 20 anos espremendo sua cadeia de fornecedores, que seriam os nossos romanos. Saíram vencedoras, como Pirro, porém percebem agora que essa vitória talvez venha a afetar o próprio desempenho.

No passado recente, sob pressão e diante da ameaça das importações viabilizadas pelo real supervalorizado, a cadeia produtiva da indústria automotiva não viu alternativa a não ser ceder terreno. Ao praticar os preços exigidos pelas montadoras e sistemistas, os fornecedores tiveram que abrir mão de qualquer investimento em produtividade e desenvolvimento organizacional. Fecharam os olhos para a busca por inovação e perderam o bonde da tecnologia. Muitos faliram, entre eles empresas campeãs do passado. Basta lembrar que hoje não há mais fabricantes de macacos no Brasil – todos são importados, principalmente da China.

A crise chegou e é quando a água baixa que podemos ver as pedras, segundo o ditado popular. E o que se vê no campo das autopeças, com raras exceções, é um cenário de terra arrasada. A importação já não se mostra o melhor caminho para as montadoras por causa do dólar alto – ainda que baixando nas últimas semanas. O barato ficou muito caro. O que acontecerá, então? Os chineses investirão - como já fizeram na Argentina, na África, na Itália – e comprarão as empresas nacionais na bacia das almas? Ou montarão novo parque inteiro do zero, evitando o risco-Brasil (trabalhista, tributário, etc.)? Qualquer uma dessas soluções será trágica e nos trará medalha de ouro na velocidade de desindustrialização. Quem saiu vitorioso? Pirro?

Montadoras e sistemistas buscam soluções em Brasília. O plano é jogar uma boia para a cadeia de fornecedores recorrendo ao Programa de Capacitação de Fornecedores do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que oferece auxílio para levantar as empresas pequenas e médias. As mesmas no passado derrotadas. Pelo menos uma grande montadora já se beneficiou do programa. O governo entra com recursos públicos para tentar reconstruir um equilíbrio deliberadamente destruído.

Não há dúvida de que os fornecedores precisam dessa ajuda, e ela virá em boa hora. Não pretendemos, aqui, fazer oposição ao pleito das montadoras nem ao socorro à cadeia produtiva. Mas propomos uma reflexão, um novo olhar para o futuro. A situação atual traz uma lição poderosa, a mesma que o general Pirro aprendeu há mais de dois milênios: certas vitórias podem ser amargas e abrir o caminho para derrotas irreparáveis.

Então, que seja o equilíbrio a pautar as próximas negociações entre os atores do nosso setor. O conceito de competitividade não funciona de forma isolada nem com olhar de curto prazo. Chega de imediatismos ruinosos, de operações inconsequentes de sourcing, feitas muitas vezes por negociadores externos sem qualquer compromisso com a sustentabilidade do sistema. Ou mudamos desta vez ou desistimos de ter uma indústria forte e competitiva.

Comentários: 1
 

Vanderlei Nicola
22/08/2016 | 19h13
Valter, ótimo e oportuno seu artigo ,espero que lições aprendidas com esta TROMBADA do segmento automotivo ,sege de avaliação para todos os envolvidos ,desde governo ao ultimo fornecedor da cadeia automotiva , basta de atirarem as pedras e depois correrem , grande abraço , Vanderlei Nicola

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