ANÁLISE

AUTOINFORME

Em busca da mobilidade sustentável


A sustentabilidade vai muito além de um carro econômico e reciclável


A verdadeira sustentabilidade vai da produção do aço à absorção do último pedaço de plástico pelo meio ambiente. Aos tradicionais “três erres” que simbolizam as atitudes corretas em relação ao uso de produtos e embalagens (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), os ambientalistas acrescentaram outros dois: Rejeitar e Recuperar, para evitar materiais que geram resíduos nos processos de produção e reaproveitar todo e qualquer resíduo na geração de energia, eliminando a remessa ao aterro sanitário.

A consciência e a necessidade de proteger a natureza nos levam a buscar outros erres que impactam o meio ambiente, não nos limitando ao cuidado com a exploração da matéria prima, o processo produtivo, a recuperação dos rejeitos, a reciclagem de materiais, o reuso da água, a destinação correta dos resíduos.

Afinal, sustentabilidade na indústria automobilística significa o bom uso dos recursos naturais, mas também o uso do carro no dia a dia. O comportamento ambientalmente correto começa lá atrás, na certificação da produção da matéria prima, e vai até o controle da acelerada desnecessária na arrancada no farol.

São muitos outros erres: o da Responsabilidade no Trânsito, da Responsabilidade Social e também o S da Segurança, o E da economia, o M da manutenção preventiva e até – por que não – o V do Valor de revenda do veículo. É preciso um alfabeto inteiro para transformar o vilão da poluição do século 20 no baluarte da sustentabilidade no século 21, como pretendem alguns atores do setor de veículos.

O carro sustentável não é simplesmente o carro light, mais econômico, que usa fibra de coco na forração dos bancos ou tem um tapetinho feito de garrafa pet.

Embora muito explorada pelas empresas para mostrar que o produto foi fabricado prejudicando o menos possível o meio ambiente, a sustentabilidade é um conceito muitas vezes mal interpretado. O desafio da sustentabilidade é preservar o padrão de vida a saúde e o bem-estar do homem e manter o desenvolvimento tecnológico sem exaurir os recursos naturais do planeta.

O ciclo de vida de um automóvel é infinitamente maior do que enxerga o marketing das montadoras. Para o vendedor, o carro nasce no dia do seu lançamento comercial e morre quando sai de linha. Santa ilusão. Esse breve período do seu verdadeiro ciclo de vida talvez seja o que menos causa impacto ao meio ambiente.

A construção do carro sustentável percorre um longo caminho, quase infinito, e que ultrapassa questões de uso de materiais reciclados, recicláveis e orgânicos, economia de combustível, fontes limpas e outros.

O ciclo de vida de um automóvel nasce há bilhões de anos, com as primeiras formações de jazidas minerais na natureza e se estende sabe-se lá até quando, uma vez que a decomposição de alguns dos seus componentes leva centenas de anos e outros não têm nem tempo determinado para serem absorvidos pela natureza. É um ciclo de destruição que precisa ser controlado (e para isso, conhecido) para que possamos atenuar o seu impacto na Terra.

O longo processo de produção de insumos e do produto em si ainda não é tudo. Na sustentabilidade do automóvel devem ser considerados os materiais, o processo produtivo, o consumo e as emissões de poluentes na produção e no uso, a manutenção do veículo em sua vida útil, a segurança e até o custo de propriedade.

A produção deve priorizar o uso de materiais mais leves, materiais orgânicos e de origem certificada, sempre que for possível, na substituição por materiais de origem mineral, portanto finitos. E também o uso de materiais reciclados e recicláveis.

O uso de fibras naturais tem como objetivo substituir materiais plásticos e metálicos em partes do carro, como painéis, bancos, portas, consoles. O desenvolvimento desse tipo de material ainda é muito incipiente em todo o mundo, mas segundo as previsões do professor Mohini Sain, diretor do Centro de Biocompósitos e Processamento de Biomateriais da Universidade de Toronto, no Canadá, em 2033 cerca de 50% dos materiais utilizados na fabricação dos carros serão feitos de fibras vegetais.

O material orgânico diminui o risco de poluição na hora do descarte, pois são compostos facilmente recicláveis. São mais leves que os derivados de petróleo, contribuindo para a redução da relação peso-potência do veículo e, portanto, economizando combustível. Calcula-se que cada quilo eliminado do carro resulta em uma economia de nove litros de combustível por ano.

O desafio é produzir biomateriais a preços competitivos. A indústria precisa ter um ganho econômico com o uso de fibras naturais, caso contrário não haverá interesse em ampliar a participação desse material nas linhas de produção. Mas em muitos casos o biomaterial é até mais barato, quando aproveitado dos resíduos descartados da produção agrícola.

Soja, coco, cana-de-açúcar, milho, casca de arroz, palha de trigo, sisal, fibra de curauá, bambu e até fibra de tomate já estão presentes no carro sustentável. Mais leves e mais resistentes, os biomateriais substituem com mais eficiência alguns materiais sintéticos.

A preocupação com o processo é a alma da chamada fábrica sustentável, que adota medidas que impactam no bem-estar dos funcionários, no uso racional de energia nas áreas administrativas e fabris, no tratamento e reuso de água, no aproveitamento de energia nos fornos, na reciclagem de materiais, na destinação correta dos resíduos, na redução de materiais de embalagens na extensão das práticas ambientais aos fornecedores, na produção de energia alternativa, como solar e eólica. Nas ações sociais com a comunidade no entorno na sede da empresa, na assistência e apoio aos familiares dos funcionários.

Cada material ou componente introduzido na linha de montagem tem uma história no seu processo de produção, por isso é preciso considerar as emissões da indústria petrolífera, da petroquímica, de processamento de plástico e de manufaturas, de insumos em geral. Analisar a origem dos materiais, como foram produzidos e de onde vêm (qual a quantidade de combustível gasta para ele chegar à montadora), sua vida útil e a política de logística reversa do fabricante.

Se a redução de custos de conserto do bem e de assistência médica dos acidentados fazem parte da sustentabilidade – e fazem! –, um carro dotado de bons sistemas de segurança e um motorista que promove a manutenção preventiva do veículo são também importantes para a construção do carro sustentável. Assim, tanto os carros com tecnologia de segurança ativa (que protege o usuário de acidentes) quanto os que possuem itens de segurança passiva (aqueles que reduzem os efeitos em caso de acidente) contribuem para a construção da sustentabilidade móvel.

Da mesma forma, o motorista que obedece a legislação de trânsito e dirige com segurança e parcimônia está atuando para a construção de uma mobilidade sustentável. Para isso é preciso ter o conhecimento da legislação, respeitar os limites de velocidade; não fazer uso de bebida alcoólica, droga e medicamentos ao dirigir, dar preferência aos meios mais frágeis.

E por que não estender a preocupação ambiental com o custo de propriedade do veículo, questão relevante no mercado do varejo, na qual as montadoras se apoiam para oferecer ao consumidor um produto mais adequado às suas necessidades e exigências, e que é constituído pelo preço do carro, custo de manutenção, preço de mão de obra de oficina, valor do seguro, depreciação com o uso.

A mobilidade sustentável é, portanto, parte integrante do carro: de que adianta um produto sustentável se não for manuseado de forma correta?

Mas a mobilidade sustentável é um conceito que ainda engatinha no Brasil; um desafio para gestores públicos e executores das políticas ambientais e urbanas, especialmente em cidades onde o transporte individual ainda é a única solução viável, por causa da carência de transporte público e coletivo. Onde o desenvolvimento social e econômico e a concentração das populações nas áreas urbanas levam a um estrangulamento do espaço público.

A mobilidade sustentável promove o direito à circulação e ao uso do solo. A Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal nº 12.587 de 2012) prioriza o transporte não motorizado sobre o motorizado e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado.

Mas é um equívoco considerar que uma política de restrição ao uso do carro nos centros urbanos pode prejudicar o setor automobilístico. Ao contrário do que alguns especialistas acreditam, o uso racional (e restritivo, em alguns casos) do carro terá, a médio prazo, um efeito positivo sobre a indústria, pois tornará o uso do automóvel mais prazeroso, mais seletivo, enquanto as atividades do dia a dia serão contempladas pelo transporte público e veículos individuais menos poluentes ou de emissão zero. E assim o transporte individual será mais valorizado.

A mobilidade sustentável considera ainda que deve haver integração entre os modais de transporte e o uso ponderado da infraestrutura urbana, a criação de espaço exclusivo para o transporte público coletivo e transporte não motorizado. Portanto, ações do poder público que desagradam parte dos usuários, como a criação de ciclovias, de faixas exclusivas de ônibus, rodízio de veículos, restrições de circulação e pedágios urbanos, estão cada vez mais na ordem do dia dos grandes centros urbanos e vieram para ficar.

O problema não está circunscrito aos grandes centros urbanos, ao contrário: a diversificação das vendas de veículos no Brasil está tendo grande impacto no antes tranquilo trânsito de cidades pacatas. É imperiosa a ação de gestores públicos no sentido de preparar as cidades para um futuro próximo de aumento da demanda do solo urbano por veículos motorizados.

Estudo feito pela Anfavea, a associação de fabricantes de veículos, indica que enquanto as vendas nas grandes cidades estão regredindo, crescem assustadoramente nas cidades pequenas.

O carro sustentável não vai surgir de repente. Do nada. Ele já está sendo construído; está chegando aos poucos.

Algumas tecnologias já estão presentes, como os freios regenerativos, que transformam a energia liberada durante uma frenagem em energia elétrica; o start-stop, que desliga o motor quando o carro para; faróis e lanternas com LED, que reduzem o uso de energia e tem uma vida útil infinitamente maior.

Em última instância, o carro sustentável será o carro autônomo, que, além de tudo, leva você a qualquer lugar sem estresse e sem preocupação. Como disse Anders Eugensson, responsável pelo programa Morte Zero da Volvo na Suécia, com o carro autônomo, “o ato de dirigir não vai mais atrapalhar você quando está usando o seu celular”, um indicativo de que o homem terá também uma direção sustentável.

Mas apesar de toda evolução, a mobilidade sustentável depende muito mais do comportamento do homem do que das melhorias tecnológicas. Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, conquistou a sustentabilidade com o seu fusquinha 1987 e seu jeito despretensioso de dirigir. Obteve até a sustentabilidade financeira, e como! Um bilionário árabe ofereceu US$ 1 milhão a Mujica pelo carro.

A mobilidade sustentável pode estar no avião supersônico ou no Fusquinha de Pepe. Ou, para ir ainda mais longe, ao lombo de um pangaré, como revela o diálogo entre o engenheiro e o caipira:

– Ô caipira, já viu o carro do futuro? Não polui, é autônomo, ele anda sozinho, bastando para isso um simples comando. É só mandar que o carro vai pra onde você quiser: te leva pra casa sozinho, mesmo quando você está bêbado.

– Então o carro do futuro é o meu cavalo: me leva pra qualquer lugar que eu mandar e ainda por cima não aceita um comando arriscado; se eu tiver em direção ao precipício ele empaca e não vai pra frente.

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