ANÁLISE

INOVAÇÃO

Lições de um Inovar-Auto que poderia ter dado certo


Programa vai terminar com a sensação de que poderia ter sido, mas não foi


Estamos perto de 2017, último ano do Inovar-Auto. O programa que ofereceu uma grande oportunidade para que o Brasil acelerasse efetivamente seu estágio de desenvolvimento e inovação no setor automotivo. Tudo indica, no entanto, que o regime automotivo chegará ao fim envolto na melancolia do “podia ter sido, mas não foi”. E talvez não tenha uma segunda chance: a julgar pelos sinais que o governo interino vem emitindo, programas setoriais não andam bem cotados; pior ainda quando se baseiam em renúncia fiscal. São mínimas, portanto, as esperanças de um Inovar-Auto II.

Poderíamos – deveríamos – ter feito muito mais. O investimento mínimo em P&D&E&I (Pesquisa, Desenvolvimento, Engenharia e Inovação) previsto pelo programa girava em torno de R$ 1,4 bilhão por ano. Chega-se a esse número considerando a receita operacional líquida anual do setor em 2014, de R$ 129 bilhõess, dos quais 0,3% caberiam a P&D e 0,75% à engenharia. A inovação de verdade demorou a decolar e esses limites, aparentemente pequenos, foram atingidos com dificuldade por muitas das empresas que se dizem inovadoras.

É pouco diante dos desafios que temos pela frente em qualidade, produtividade e confiabilidade, sem falar no impacto ambiental em toda a cadeia da mobilidade. Temas para se investir em P&D no Brasil não faltam. Se compararmos com o outro extremo, então, a diferença tende a ser astronômica. De acordo com o VDA, sigla para a German Association of the Automotive Business, o investimento em P&D Auto na Alemanha em 2014 foi de € 19,7 bilhões! Perdemos de 56 a 1. Bem mais do que no futebol.

Outra nuvem cinzenta que paira sobre o programa é o panorama de derrota diante das representações movidas por outros países junto à OMC. Elas progrediram e vêm evidenciando que iniciativas como o Inovar-Auto podem ser vistas como medidas de proteção de mercado. Estamos, portanto, nos aproximando de um xeque-mate.

A maioria dos especialistas em direito internacional que ouvimos considera que perderemos nos tribunais; para eles, a melhor saída seria mesmo propor e realizar um acordo. Caminhar para uma solução que nos permitisse redução nas penalidades que serão certamente impostas ao Brasil e, ainda, negociar um prazo de adequação para se recompor. A derrota brasileira nos tribunais internacionais significaria que, quando houver retomada do mercado, os novos compradores de veículos serão disputados com montadoras recém-chegadas, em especial indústrias asiáticas com preço e qualidade extremamente competitivos.

A indústria brasileira poderia ter se tornado um polo automobilístico mais forte globalmente caso tivesse investido em engenharia, P&D e inovação competitiva. Infelizmente, prevaleceu a resistência às transformações. Claro, houve e há exceções, mas é possível contar nos dedos os acordos de cooperação e os projetos estruturados com o objetivo de extrair o máximo do programa.

As indústrias de autopeças, nas quais nasce boa parte da competitividade do setor, olharam criticamente as mudanças e blindaram-se em vez de desenvolverem projetos conjuntos, financiados pelas montadoras, como o programa permite. Ficaram sonhando com um Inovar-Peças que nunca fez o menor sentido. Nem para os técnicos nem para os especialistas do governo que conceberam - e conceberam bem - um programa de competitividade para a cadeia completa.

As importadoras optaram por depositar os recursos que poderiam financiar projetos de competitividade e inovação no misterioso Fundo Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT. Um fundo do governo sobre o qual ninguém tem qualquer controle.

Não se sabe sequer que destino é dado às centenas de milhões que para ele afluíram, configurando, inclusive, um problema no campo de compliance para essas empresas. Isso em um país no qual um número enorme de projetos inteligentes e de alto impacto na competitividade permanecem engavetados por falta de dinheiro em instituições de pesquisa, universidades e startups.

Sinto profundamente que um dos setores industriais mais importantes do país tenha perdido, mais uma vez, o bonde. Queria que fôssemos mais competitivos. Que as empresas que atuam no setor – todas elas – despertassem agora como quem perdeu a hora e corressem para implantar ações que gerem resultados no campo da competitividade. Que conseguissem não ser engolidas em pleno sono por dragões vindos do outro lado do mundo.

Comentários: 6
 

Daniel Spinelli
13/06/2016 | 06h45
Hoje atuo como expatriado na Turquia e vejo que programa semelhante o senao mais abrangente ocorre tambem nao somente aqui mas em toda Europa. Programa de incentivos a inovacao com metricas de conteudo local e financiamento de atividades de P&D sao comuns e fazem parte do fomento a competitividade do pais junto a universidades, instituicoes de pesquisa e centros de desenvolvimento. Auditorias sao constantes e para o Brasil tambem vejo como uma grande perda no que se refere ao desenvolvimento de recursos e capacitacao de pessoal em tecnologia e empreendedorismo.

Josué F. Santos
13/06/2016 | 16h11
Acho que a idéia foi muito boa, especialmente quando vimos algumas novas tecnologias que surgiram, como downsizing, redução de consumo e emissão, etc. Este programa deveria sim continuar, com este foco e focando também outros campos, como segurança passiva (via crash test), segurança ativa (controles de estabilidade, tração, etc.)........

Julian Cassimiro
14/06/2016 | 01h57
Errei, tá errado, e não se erra mais nisso. Vamos para o próximo regime 2018~2022 com uma boa carga de experiência. O Brasil pode e deve exigir melhorias em P&D&E&I só que de forma sustentável e paulatina. Exigir investimento em planta para novos entrantes é uma falha do Inovar... e provou que não funcionou.

Francisco Henriques
27/06/2016 | 12h18
Querer fazer inovação no Brasil do jeito que as coisas são feitas e para não levar a sério. Para ter inovação tecnológica é necessário que haja uma boa base de engenheiros com conhecimento técnico e cientifico. Hoje as escolas de ponta não suprem essa demanda. A grande maioria vem das universidades privadas e por sua vez de escolas públicas de ensino médio. A maioria dos alunos mal sabe fazer as operações básicas quem dirá fazer e criar tecnologia de ponta. As universidade por sua vez querem ganhar dinheiro e professor reprovar por baixo conhecimento é pedir para ser demitido. O governo por sua vez quer fazer bonito no social e no lugar de incentivar um ensino de base sério e competente faz um sistema de aprovação automática para aparecer bem nos índices internacionais. Resultado final uma massa de "engenheiros" que não conseguem evoluir sozinhos. Ou alguém acha que o "jeitinho brasileiro" vai conseguir driblar as leis da física e da engenharia?

JOAO GUILHERME
11/07/2016 | 08h48
Excelente artigo. Mais uma vez o Brasil é muito bom a planejar e montar equipes de planejamento estretégico, que não saiem do papel, porque por m lado não há realismo no planejamento e por outrol lado, falta gente com capacidade para o executar. Só na TV se consegue desarmar bombas com um clip, e essa é a sensação que quem trabalha na industria automotiva Brasileira tem diariamente...

Adriano Alves
05/08/2016 | 14h34
Ótimo artigo! Devemos debater mais sobre projetos mal executados. Acredito que todos no debate devam conhecer a "Lei do Bem", senão pesquisem sobre. É uma lei que incentiva P&D, mas devido a falta de abertura para outros regimes menores - quais mais de 90% das empresas do Brasil são médias ou pequenas - apenas os grandes players do mercado gozam desse incentivo.

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