ANÁLISE

INOVAÇÃO

Veículos passam por ressignificação


Revolução no setor não é guiada apenas pela tecnologia


A crise do setor automotivo não é somente de mercado. Está em curso uma clara revolução envolvendo o significado dos veículos e quem primeiro compreender essa nova realidade e melhor se adaptar a ela colherá os resultados. Há sinais claros de que, quando a economia se recuperar e o mercado voltar a se movimentar, mudanças em outras dimensões continuarão castigando as montadoras, como, por exemplo, a sociocultural. Talvez nem todas as empresas serão afetadas, mas certamente as menos conectadas à importância do significado dos produtos e à Inovação Guiada pelo Design sofrerão mais. Não me refiro ao design como estética. Longe disso. Aqui o termo refere-se à concepção de veículos capazes de despertar emoções positivas nos clientes. Veículos capazes de provocar paixões. Essa abordagem está consolidada e operacional, com grande sucesso, em diversos de nossos clientes – e prova disso é que, mesmo na crise, determinados veículos vendem bem, outros não.

Uma evidência das mudanças no que os automóveis representam para as pessoas é a grande dificuldade que empresas começam a enfrentar na contratação de jovens candidatos que dirijam. Estamos acompanhando há meses a luta de uma confecção para preencher uma vaga aberta para gerente da área de desenvolvimento de produtos na indústria da moda. O mesmo tem acontecido em empresas que lidam com vendas e assistência técnica. Notem: não é que esses jovens precisem ter carro próprio. Como são vagas que exigem locomoção permanente, as empresas oferecem veículos corporativos aos funcionários. O problema é que boa parte dos jovens não tem nem sequer carteira de motorista.

Eles acham que já existem carros demais circulando pelas ruas das grandes cidades brasileiras e que não há motivos para tirar habilitação. Preferem se deslocar de ônibus, metrô e alguns de bike – uma tendência, especialmente em cidades como São Paulo, que vêm investindo na construção de ciclovias. Curioso pensar que o sonho dos adolescentes da minha geração era tirar a carteira no mesmo dia em que completávamos os tão esperados 18 anos.

Como se vê, a revolução do setor automotivo já começou. E, diferentemente de tudo o que aprendemos no passado no campo da inovação, o motor principal dessa transformação não é a tecnologia. A nosso ver, é o significado que comandará a revolução da mobilidade. É ele que ditará a velocidade da mudança.

Não estão convencidos? O que pensariam se uma montadora decidisse lançar um modelo de veículo sem acessórios eletrônicos e que, ainda por cima, não tivesse direção assistida nem carpetes? Um carro esportivo, mas com motor pequeno, mais leve e bem mais barato? Parece que não faz muito sentido, não é? Errado! Estou falando do Alfa 4C, que já é considerado o grande sucesso do relançamento da marca Alfa Romeo no mundo.

Na concepção desse carro, a marca italiana, historicamente associada às corridas no início da era das competições e da Fórmula 1, abandonou sua estratégia de concorrer com veículos também esportivos, porém custosos; alemães, principalmente. Os donos desses carros querem de alguma forma exibir poder e riqueza. A Alfa foi em busca de um significado completamente diferente: o prazer de dirigir. Mirou pessoas que amam guiar seus carros. Que gostam de responsividade. O Alfa 4C tem uma relação peso-potência comparável à de modelos muito mais caros, como, por exemplo, as máquinas da Ferrari, mas custa algo em torno de 57 mil dólares. Seus apaixonados compradores não exibem luxo, mas sim seu amor por guiar. O modelo foi lançado em 2013 e em poucas semanas tinha vendido um ano inteiro de sua produção.

É hora de inovar no jeito de inovar. Somente a tecnologia não oferece respostas aos novos desejos íntimos dos compradores. Tampouco adianta usar os ultrapassados métodos de grupos de foco e pesquisas quali e quanti, esperando que deles saia um veículo de sucesso. Se antes era importante ouvir o cliente, agora é imprescindível viver o cliente, sentir o cliente e descobrir, com a ajuda de intérpretes, quais relações afetivas comporão o significado dos veículos do futuro. Isso é que fará com que compradores apaixonados se esqueçam da crise e coloquem a mão no bolso.

Bom trabalho!

Comentários: 0
 

Comente este artigo

Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de questões técnicas ou comerciais. Os comentários serão publicados após análise. É obrigatório informar nome e e-mail (que não será divulgado ao público leitor). Não são aceitos textos que contenham ofensas, palavras chulas ou digitados inteiramente em letras maiúsculas. Também serão bloqueados currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.
Seu nome*: Seu e-mail*: