ANÁLISE

QUALIDADE

Jovens talentos e a indústria automotiva


Setor precisa voltar a ser atrativo aos profissionais


Entre 1960 e 1970, a indústria automotiva brasileira possuía forte atratividade para a contratação de jovens profissionais. Era a preferida de todo recém-formado em engenharia mecânica, que por via de regra desejava ingressar numa montadora ou grande empresa de autopeças. Eram outros tempos, é claro, de enorme crescimento na cadeia automotiva. Com o passar dos anos, outros setores começaram a evoluir no Brasil, apresentando novas formas de trabalho, e os engenheiros, que até então só miravam a indústria automotiva, perceberam muitas outras oportunidades.

Hoje a cadeia automotiva enfrenta concorrências pesadas na disputa por mão de obra especializada, como as empresas de tecnologia da informação, as companhias da área de negócios e as próprias redes bancárias. Enquanto montadoras e sistemistas apresentam um modelo clássico de gestão, com passagem de responsabilidades dentro de uma estrutura hierárquica, outros setores têm dinâmicas de trabalho que são consideradas mais atrativas pelos jovens. Na área de tecnologia da informação, por exemplo, empresas oferecem comodismos como trabalhar home office ou usufruir de espaços abertos dentro dos escritórios para a troca de ideias.

Fato é que hoje os jovens querem ter mais liberdade e facilidade de comunicação. Eles não buscam obrigatoriamente uma carreira vertical, mas experiências diferentes e novos desafios, ou seja, oportunidades de trabalho mais dinâmicas e criativas, que combinem desenvolvimento profissional com perspectiva de crescimento. Vale lembrar que há cerca de 10 anos o perfil do jovem já não era se manter no mesmo posto de trabalho por longos períodos, mas trocar de emprego para aprender o máximo possível.

O setor precisa voltar a ser atrativo para trazer ou, mesmo, reter esses talentos. Cientes de que novas demandas aparecem em cada geração, montadoras e sistemistas já avançam alguns passos nesse sentido. Além de oferecer planos de carreira e programas de trainees, na busca de talentos em universidades e escolas técnicas, a indústria começa a mudar a sua forma de gestão e suas estruturas organizacionais. Hoje, por exemplo, um engenheiro não precisa só trabalhar numa área de engenharia, mas pode contribuir em diversos setores como produção, tecnologia, vendas e comercial.

A indústria automotiva também já oferece outros chamarizes. O setor passa por uma revolução em termos de conhecimento e informática. Hoje a palavra que mais está em voga é conectividade. O sonho de consumo de parcela considerável dos brasileiros é apertar um botão que faça tudo sozinho. Nesse sentido, vários aplicativos surgem no setor, o que demonstra uma aproximação cada vez maior entre a indústria automotiva e o mundo da informática, um universo pelo qual os jovens têm alto grau de interesse. Neste caso, une-se o útil ao agradável: o perfil de inovação e criatividade com a necessidade do setor automotivo.

Outro atrativo para os jovens são os esforços da nossa indústria para a preservação do meio ambiente, refletidos no desenvolvimento de tecnologias que são capazes de atender as metas de melhoria da eficiência energética dos veículos. Existem cada vez mais legislações, que obrigam o setor – que por sua vez também se compromete – a desenvolver carros cada vez mais econômicos e menos poluentes. Neste contexto de transformações, tanto tecnológicas quanto legais, o equilíbrio dos experientes e a expertise dos jovens para a inovação são fundamentais para alavancar o processo de aprimoramento da qualidade na indústria.

Dessa forma, a indústria automotiva já caminha para ser tão atrativa como era lá no começo, o que deve ocorrer gradativamente nos próximos anos. Embora agora esteja enfrentando momento difícil, de adequação da produção aos patamares de vendas, o setor tem espaço de crescimento, que se dará não só em volume, mas em diversidade de produtos em função das novas demandas por conectividade e preservação ambiental. Independentemente de quanto tempo vai durar essa fase de incerteza, devemos apostar que a indústria vai passar por retomada e quem se preparar agora sairá na frente.

Comentários: 5
 

Emerson
04/12/2015 | 13h48
Caro Ingo, A sua análise pode valer para mercados como EUA, Japão e Alemanha. Não para o Brasil. Hoje um estagiário de engenharia da graças a Deus se encontrar um estágio. Hoje no Brasil ninguém pode se dar a este luxo de escolher onde trabalhar. Trabalha onde consegue. Atenciosamente Emerson

Rafael
07/12/2015 | 08h07
Eu gostaria que o cenário fosse realmente como você escreveu Ingo, mas além do que o Emerson comentou, o desenvolvimento está cada vez mais longe dos engenheiros brasileiros, nosso contexto, com ou sem crise, infelizemente nos cerca cada vez mais em apenas atuar com engenheiros de vendas e planilhas.

Giulianna
07/12/2015 | 09h15
Caro Ingo, Sou estagiária da Mercedes-Benz do Brasil e não tenho nenhuma perspectiva de efetivação na empresa. Acho que essa renovação nas indústrias automobilísticas ainda está muito distante, pelo menos considerando o mercado brasileiro.

Julian Cassimiro
08/12/2015 | 03h56
Acredito que o texto do Ingo é pertinente, assim como também os comentários dos engenheiros acima. O problem ainda está na acessibilidade e condições de mercado. Acessibilidade no que tange à vontade política em incentivar o desenvolvimento. Condições de mercado está também na política automotiva que influencie o consumo de novas tecnologias. Inovar-auto 2 é a chance da virada.

Marcio Santos
08/12/2015 | 12h24
Este desinteresse pelo setor automotivo é mundial, o produto já não desperta grandes paixões da geração Y; o ciclo de desenvolvimento é muito longo e repetitivo; a competitividade acirrada exige que as empresas façam mais com menos o que resulta em salarios baixos e muita pressão.

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