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Opinião | Pedro Kutney |

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Pedro Kutney

03/12/2015

Caminhões viveram de incentivo irresponsável

Política de financiamento do BNDES distorceu o mercado

Depois de alguns anos de prosperidade, o mercado brasileiro de caminhões entrou em queda livre e deverá encerrar 2015 em seu volume mais baixo em 12 anos, é provável que nem passe de 70 mil veículos novos emplacados no ano inteiro, praticamente metade do resultado de 2014. A atividade econômica em baixa explica apenas em parte o movimento tão brusco. Em boa medida, incentivos irresponsáveis doados ao setor via financiamentos do BNDES provocaram distorções que aparecem agora na forma de profunda depressão das vendas.

O Programa de Sustentação do Investimento (PSI) surgiu em 2009 como uma linha ainda mais barata do BNDES-Finame para financiar bens de capital, incluindo caminhões. Coisa de pai para filho mimado: prazos de até oito anos para pagar o veículo com os juros fixos mais baixos do mercado, abaixo da inflação, que ao longo dos seis anos do programa variaram de 10% a inacreditáveis 2,5% ao ano, em certos momentos com financiamento de 100% do valor do bem.

Assim, às custas do Tesouro Nacional que cobre a enorme diferença entre o PSI e as taxas reais de captação de recursos, mais de 80% das vendas de caminhões no País foram sendo sustentadas por um programa insustentável ao longo do tempo, que ajudou a corroer o caixa da União em algo como R$ 100 bilhões em financiamentos concedidos para compra de caminhões zero-quilômetro, ajudando a construir o rombo fiscal em que está metido o atual governo. Calcula-se que, mesmo com a baixa do mercado, o Tesouro gastou R$ 4,7 bilhões só no primeiro semestre deste ano para subsidiar as taxas do PSI.

Pior é que a grande maioria desses contratos foi celebrada com empresas transportadoras de médio e grande porte que bem poderiam pagar mais, pois é praticamente impossível o acesso ao crédito do BNDES pelos caminhoneiros autônomos, que continuam a somar a maior parte da frota rodando com veículos velhos, inseguros a altamente poluentes. Ou seja: o PSI trouxe poucos benefícios econômicos, sociais e muito menos ambientais.

ESQUIZOFRENIA FINANCEIRA

Atendendo aos desejos de gente com bom trânsito nos gabinetes de Brasília – mais interessada em garantir polpudos bônus por altas vendas no fim do ano do que no futuro da indústria –, o governo vem concedendo renovações anuais atabalhoadas do PSI, que beiram os limites da irresponsabilidade. O resultado foi a criação de um mercado fantasma dependente químico do BNDES, com a manutenção de taxas tão baixas que provocaram antecipação da demanda futura, inflando uma bolha de consumo que explodiu este ano, alfinetada pela recessão econômica e a recolocação dos juros do programa em patamares mais realistas, de 10% ao ano desde janeiro – ainda assim muito abaixo da prática de mercado –, além de deixar de financiar 100% do bem, passando a somente 50% para grandes empresas e 70% para as pequenas e médias, com prazo máximo cortado para cinco anos.

Por taxas que variaram de 2,5% a 6% ao ano entre outubro de 2012 e dezembro de 2014, com 100% do bem financiado, até quem nunca precisou de um caminhão comprou, não para virar transportador, mas para aproveitar o retorno financeiro sem igual da operação via PSI. O resultado da demanda acima da necessidade real pode ser visto em pátios que hoje abrigam milhares de caminhões novos sem uso.

Em vez de fomentar o investimento onde ele precisa ser feito, o PSI gerou especulação financeira. A administração esquizofrênica das taxas e renovações do programa causou diversas distorções.

Em 2011, quando os compradores correram às concessionárias para adquirir veículos Euro 3 mais baratos do que seriam os Euro 5 no ano seguinte, o governo manteve a taxa do PSI em apenas 8% ao ano, ajudando a consolidar o recorde histórico de 172,8 mil caminhões vendidos. Em janeiro 2012, quando entrou em vigor a nova legislação de emissões e começaram a ser vendidos os modelos Euro 5 de 8% a 15% mais caros, a taxa do financiamento foi inexplicavelmente aumentada para 10% ao ano, na contramão do bom senso, justamente quando seria interessante conceder incentivos para a compra de caminhões menos poluentes.

Depois disso, de forma destrambelhada e desesperada, quando se deu conta do buraco aberto no mercado pela mudança da legislação e dos preços, o governo iniciou uma ofensiva de baixas dos juros do PSI. Em fevereiro a taxa caiu para 7,7% ao ano, foi a 5,5% em abril, desceu a 2,5% em outubro, com 100% do bem financiável. Em vez de oferecer o benefício somente aos caminhões novos Euro 5, também foram financiados alguns milhares de modelos Euro 3 fabricados em 2011 que ficaram em estoque, em mais um desperdício de dinheiro público para incentivar o que não deveria ser incentivado.

Em cada uma das mudanças, o governo, com a conivência obsequiosa dos lobistas da indústria, jogou o mercado para baixo. Após perceber o modus operandi dos administradores do PSI, os compradores ficavam sempre à espera de uma taxa mais baixa, deixando a compra para depois.

Até os beneficiários do sistema acharam que as taxas caíram a patamar excessivamente baixo. Tão baixo que nem cabia na taxa a remuneração dos agentes financeiros intermediários do PSI. O governo deu até mais do que tinha sido pedido. Em 2013, as taxas subiram para 3% ao ano em janeiro e 4% em julho. Ainda assim, abaixo de qualquer linha que se tinha notícia, fazendo muita gente comprar sem necessidade, fazendo o mercado fechar 2013 acima das 150 mil unidades vendidas.

DE VOLTA PARA A REALIDADE

Em 2014, já com a crise econômica mostrando seus primeiros sinais, a taxa do PSI foi elevada para ainda muito confortáveis 6% ao ano, financiando 100% do caminhão. Só isso pode explicar que em um ano de estagnação, sem crescimento do PIB, o mercado tenha fechado com quase 140 mil unidades vendidas.

A conta da gastança chegou em janeiro de 2015, quando o governo finalmente reconheceu que não tem capacidade de sustentar o bolsa-caminhão, aumentando a taxa e reduzindo prazo e parcela financiável. O resultado foi a quebra pela metade do mercado. Sem o financiamento barato, pode-se dizer com segurança que muitos dos caminhões não vendidos este ano já tinham sido comprados um ano antes.

Com a baixa procura, o governo colocou fim ao PSI no fim de outubro e apenas uma semana depois, mais uma vez, atendeu o lobby da indústria e estendeu o programa por mais um mês, até o fim de novembro. Outra manobra atabalhoada que mais serviu para adiar negócios, abrindo mais um buraco nas vendas.

Ninguém mais acredita que o PSI seja renovado outra vez em 2016 – ainda que seja prudente não subestimar o poder de pressão da indústria. Talvez seja melhor voltar à realidade e fazer o planejamento com o que de fato existe.

Se é para subsidiar a compra de caminhões com dinheiro público, ao menos que seja para implementar um programa de renovação de frota, que traria à sociedade reais benefícios econômicos e ambientais, ao tirar das ruas e estradas veículos inseguros e poluentes. Mas após gastar tanto dinheiro sem necessidade, talvez não tenham sobrado recursos para adotar o programa.

O problema maior é que o mal do mercado irreal já foi feito: o financiamento muito barato ajudou a construir um cenário futuro inexistente, que previa vendas de 200 mil unidades/ano na virada desta década, provocando uma corrida de investimentos e chegada de novos concorrentes ao Brasil, com aumento excessivo da capacidade de produção. Todos queriam comer um pedaço do bolo que já acabou sem alimentar os convidados de uma festa que também já acabou. O resultado é a capacidade ociosa das fábricas que varia de 50% a 60%, dependendo do caso e da linha de produtos. Muitos terão de pagar por isso com seus próprios empregos até que se descubra, de fato, de quantos caminhões o Brasil precisa.

Comentários

  • Marcos

    Muito bom texto!

  • LUIZ HENRIQUE

    Boa tarde.. Excelente artigo, pena que o Governo não tem essa "inteligencia" para administrar os recursos disponíveis, e ajudar quem realmente necessita.

  • Toty

    Ficou fora dessas contas a economia operacional proporcionada pela modernizaçao da frota, aplicaçao da lei da oferta e procura por parte dos fabricantes proporcionou aumentos irreais desses veiculos, alem disso essas taxas ´´artificiais´´ compensavam a depreciaçao do bem, lugar nenhum do mundo se fimancia bens de capital com juros de 24%/ ano como quer o sistema financeiro. A demanda por caminhoes novos continua alta a idade da frota ainda e alta , os bancos comerciais que deixaram de ser avalistas do PSI para imporem suas taxas , lá fora governos estao dando aos veiculos eletricos polpudos subsidios aos cosumidores que adquirem esses veiculos, estao fomentando um mercado irreal ?

  • Fábio Colla

    Perfeito !

  • Silvio

    E assim, como tudo acaba, a conta fica para o povo. O Brasil precisa com urgência de políticas verdadeiras e sem corrupção. O transportador que move o País ,não tem nada 0 de incentivo, paga pedágios caros, óleo diesel mais caro e frete cada dia mais baixo. Gostaria que os caminhoneiros entendessem a força que tem e parassem realmente o País.

  • Arnaldo Pellizzaro

    Excelente artigo, Pedro. Sempre que se cria artificialmente uma bolha no mercado - em qualquer segmento - cria-se simultaneamente a depressão que vem no seu rastro. Quando um comprador consegue reduzir a idade média da sua frota de 5 ~ 6 anos para 2 ~ 3 em um cenário recessivo, imediatamente deixa de adquirir caminhões novos assim que a artificialidade é suprimida. Nos automóveis ocorre o mesmo. Quando o mercado dos novos é inflado por medidas casuísticas, o comprador tem todas as condições econômicas e mesmo psicológicas para se retrair no momento seguinte. E este efeito se propaga para o mercado de seminovos, reforçando a ressaca do sistema.

  • Samuel Santos

    Trabalhei por 15 anos em uma grande montadora de Caminhões e toda vez que comentava que os resultados de vendas eram artificiais, camuflados e insustentáveis, me chamavam de pessimista....E agora? Infelizmente, muitos daqueles que me intitulavam de pessimista estão hoje colhendo o fruto do desemprego que assola as montadoras de caminhões no Brasil. Excelente leitura do Cenário automobilistico no Brasil. Parabéns pelo Texto!

  • AZANOR POSSOLI

    Perfeito pena que os governantes pensam somente em reeleição.

  • Ronaldo

    Excelente artigo, Pedro. Essa diabólica combinação de corrupção com incompetência, está acabando com as esperanças no nosso país. Lamentável!

  • Rodrigo

    Muito bom este artigo!!! Parabéns Pedro Kutney.

  • CarlosT Furquim

    Coma atividade economica menos intensa estamos presenciando neste momento, greve dos caminhoneiros, o resultado dessa politica desastrada.

  • SolAngel

    Umapolítica irresponsável com milhares de dependentes químicos em crise de abstinência, NÃO COMPREENDEM QUE O MODAL DE TRANSPORTE DE CARGAS produtos agrícolas soja, milho, farelo, algodão, combustíveis ...MAIS EFICAZ, EFICIENTE, seguro E ECONÔMICO É O FERROVIÁRIO. PODE RETIRAR, repito, pode RETIRAR com 5 composições apenas 1.400 (hum mil e quatrocentas) carretas das BR's POLUIR MUITO MENOS!!! VIVA o O2 PURO!!!

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