ANÁLISE

INOVAÇÃO

A pilotagem do “drone Inovar-Auto”


Empresas precisam parar de olhar só para os custos e alcançar metas do programa


Máquinas difíceis de pilotar, como helicópteros e veículos de alta potência, exercem fascínio enorme sobre nós engenheiros. Queremos controlá-las. Somos hipnotizados pelo chamado que emana delas: “Domine-me ou morra”. Olhemos para o Inovar-Auto como se ele fosse um drone, e consideremos por esse prisma os resultados gerados.

Isso mesmo: a metáfora que usaremos é a de um aparelho sofisticado. Imagine um drone de seis hélices, movido e guiado pela variação de intensidade da energia colocada em cada um dos seis motores que as impulsionam. Os motores que mantêm o drone Inovar-Auto no alto, na rota e produzindo resultados são:
-Variação dos tipos e modelos de veículos produzidos, bem como o total de unidades de cada tipo;
-Índice de conteúdo nacional em cada desses veículos;
-Precificação;
-Investimento total em P&D ou em engenharia da empresa;
-Gestão tributária;
-Eficiência energética de cada modelo.

Sozinho, qualquer um desses pontos já seria suficientemente complexo de gerir. Imagine todos juntos e interligados em um programa. No tema eficiência energética, em especial, estão previstas multas milionárias para quem não cumprir as metas.

Deu para perceber o quão complicado é pilotar esse drone. Em equilíbrio instável, ele se desloca para um lado ou para o outro à menor variação da intensidade de um de seus motores. Para que se mantenha no alto é preciso monitorar o tempo todo cada um dos seis conjuntos de variáveis. Não individualmente, e sim a partir das interações, sempre combinando o todo. Um exercício para hábeis gestores, e uma sofisticada estratégia que se tornou arma competitiva em qualquer empresa que queira produzir para o setor automotivo no Brasil.

O problema é que, passados 34 meses da implantação do programa, aconteceu exatamente o que dizíamos lá no início, na época do lançamento, sem que nos dessem ouvidos. Algumas montadoras (poucas), mais atentas e inteligentes, pilotam felizes seu drones, enquanto outras até hoje reclamam e ficam esperando adiamentos e mudanças que não acontecerão. Enquanto as primeiras obtêm centenas de milhões de reais em resultados diretos da gestão do Inovar-Auto, as do segundo tipo correm atrás de remendar e fazer a toque de caixa o que deveriam ter feito há anos.

Ficou claro, finalmente, que pilotar o Inovar Auto não é tarefa para amadores. É um dos mais estruturados e bem formulados programas de governo que o setor já teve. Erraram os que consideraram que seria apenas mais uma demanda pouco abrangente e atribuíram a gestão às já desidratadas estruturas internas de engenharia. Elas não foram capazes de absorver.

As companhias vencedoras se estruturaram para gerir o programa, compuseram equipes de especialistas internos ou de consultores, e essas equipes monitoram cuidadosamente cada um dos seis pontos. Por meio de indicadores e painéis de controle especialmente estabelecidos, atuam ajustando esse conjunto de métricas e buscando sempre a melhor e mais balanceada solução.

Esse equilíbrio, o ótimo do conjunto, significa que cada componente opera em nível sub-ótimo. Representa, muitas vezes, ter que dizer não à produção de um modelo ou à comercialização de outro. Pode requerer até que se venda com prejuízo determinado veículo para conseguir o melhor resultado global do sistema.

Em nossos trabalhos de gestão, monitoramos os resultados a cada semana e disparamos continuamente ações de ajustes. Algumas mais simples, ligadas a definições diretas de portfólio ou volumes. Outras mais sofisticadas, envolvendo um conjunto de fornecedores estratégicos parceiros. Incluem-se aí as ICT (Instituição Científica e Tecnológica) e até mesmo, mais recentemente, startups que operam com soluções de engenharia.

As respostas nos resultados do programa nem sempre são imediatas. Como nos artefatos que usam rádio, há uma defasagem entre os comandos e as mudanças de rumo. Isso torna ainda mais importante o planejamento preciso e o mais antecipado possível.

O programa Inovar-Auto é estratégico e decisivo para os resultados das montadoras. Deve ser tratado pela alta direção - até mesmo, muitas vezes, pelo presidente, com atenção permanente e avaliação semanal de resultados. Como acontece frequentemente no Brasil, agora, às vésperas da catástrofe, fica-se chorando para que as regras sejam alteradas. Não acreditamos que isso vai acontecer. É bem mais provável que o drone descontrolado caia direto na cabeça destes gestores do improviso e do exclusivo foco em custos.

Comentários: 2
 

Fábio Colla
18/09/2015 | 22h39
Eu diria o seguinte: 1) VW, Fiat, Toyota, Honda e Ford se prepararam. 2) GM não. Correu para a Argentina montar o novo Cruze com peças importadas. 3) Caoa e Souza Ramos não se prepararam... As piores eu diria. Tudo importado. 4) Hyundai - HB20... não sei, pois tem motor e câmbio importados.

Alain Tissier
19/09/2015 | 12h25
Bonjour Walter / Gostei da metáfora (e da coluna) mas uma pergunta fique sem resposta: para onde levar o meu drone após o final de 2017 para os investimentos de engenharia e R&D. Teremos sim o não um INOVAR 2 o ampliação dos prazos do INOVAr 1?. A visibilidade prometida sobre o assunto no final de 2014 não aconteceu e do jeito que está não vai acontecer em 2015. 2 anos é pouco tempo para decidir o não investimentos Multinacionais não gostem de incerteza. INOVAR é um bom programa, mas sem visibilidade para o futuro pôs 2017 pode virar mais um plano no meio de tantos outros. A única diferença será que desta vez poderemos tirar uma triste foto de cima com o drone ?. PS: confirma que INOVAR não é para amador como pelo caso esse grande Mercado que é o Brasil.

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