ANÁLISE

INOVAÇÃO

A importante lição da “affordabilidade”


Momento econômico pede investimento em produtos bons, bonitos e baratos


A chave para continuar vendendo em meio a uma dura crise como a que estamos atravessando é inovar paraa oferecer “valor ao cliente”, valor este que precisa caber em seus minguados bolsos. Quando ouvi pela primeira vez, em caráter secreto dentro da engenharia da Ford, o termo “affordable SUV”, fiquei encantado. Foi em 2002, faz tempo, mas vale a pena revisitar esta história que traz inspiração para enfrentar problemas atualíssimos.

Naquela ocasião, a Ford estava prestes a lançar o EcoSport. Boa parte dos brasileiros, fascinados pela onda dos SUV, sonhava em ter um Jeep Cherokee. Os tempos também não estavam fáceis e, para a maioria das pessoas da classe média, era simplesmente impossível comprar um. Nasceu nesse ambiente o Projeto Amazon, responsável pela histórica virada da Ford no Brasil. A transformação de uma companhia que pensava em fechar as portas no país em fabricante vencedor. Um verdadeiro case de inovação frugal (como é chamada tecnicamente hoje em dia).

Comandada à época por líderes inovadores, como Antonio Maciel, Luc de Ferran e Mauro Correia, entre outros, a Ford mostrou como se faz para despertar paixão nos clientes com uma inovação que cabe nos bolsos. O que parecia impensável -- transformar um Fiesta em um SUV – foi conquistado pelo time do Projeto Amazon. Mais do que isso, acabou criando uma nova categoria de veículos, hoje alvo de investimento da maior parte das marcas.

Tudo bem: não era um carro perfeito. Estava longe de ser um SUV de verdade. Tinha uma série de adaptações visíveis, mas encantou dezenas de milhares de compradores por dois motivos: sua característica inovadora e o preço. Para nós, é justamente essa a saída para continuar produzindo e vendendo nos atuais tempos bicudos.

“Affordable”, uma daquelas palavras em inglês bem boladas e impossíveis de traduzir, é um termo que deveria ser analisado com muita atenção hoje em dia. Explico: em momentos de estagflação, a vida tem de seguir. Não adianta parar simplesmente. Nem dizer, como temos ouvido, que se correr os juros pegam e se ficar a inflação come. As empresas precisam continuar produzindo e vendendo. As necessidades e desejos dos clientes continuam, de alguma forma, existindo.

O conceito “affordable” poderia muito bem vir da palavra Ford, uma vez que Henry Ford fez história nos anos 1920 ao baratear a produção e tornar o carro, à época um objeto de desejo, acessível a mais gente, ampliando assim o mercado. “Se non é vero, é bem trovata”, como diriam os italianos, já que, na verdade, não é nada disso. A palavra vem do inglês arcaico geforthian, que significa promover. Posteriormente o prefixo ge- foi reduzido a a- e assim nasceu a palavra “affordable”.

Essa expressão está na raiz da inovação em ambientes em que impera a restrição de recursos. É justamente o tipo de inovação que funciona quando o dinheiro desaparece. Não é a inovação sexy, da sofisticação, que vinga. Nem mesmo aquela calcada em altas tecnologias. É o bom, bonito e barato que emplaca em realidades e ambientes mais pobres.

Sejamos honestos. Olhemos bem para os nossos consumidores. Não estamos falando do público dos Jardins, em São Paulo, nem dos moradores do Leblon, no Rio de Janeiro. Observemos a grande massa de pessoas que ingressou no mercado consumidor nos últimos dez anos, principalmente nas regiões que estão se desenvolvendo. Não somos a potência inovadora que gostaríamos de ser e não sabemos dizer quando nem de que forma o mercado irá retomar o crescimento.

Se pensarmos em termos dos produtos que mercados como o nosso querem, somos muito mais parecidos com a Índia e a China do que com os Estados Unidos ou a Alemanha.

Caiamos na realidade: é hora de inserir a “affordabilidade” nas estratégias e pensar em veículos bons, bonitos, mas sobretudo, baratos. O automóvel mais barato do Brasil é o Palio, é também o mais vendido. Seu preço é R$ 29.000. É um Fiat, empresa líder e que também vende carros dez vezes mais caros.

Na índia, a Maruti (Suzuki) tem 43% do mercado. O campeão de vendas da montadora, o Alto 800, custa lá algo em torno de 12.000 reais. Teria chegado a hora de o governo, por meio da redução de impostos, e os dirigentes de empresas, com suas estratégias, reinventarem o parque automotivo, tornando-o “affordable” a todos os brasileiros?

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