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Opinião | Pedro Kutney |

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Pedro Kutney

24/02/2015

No país das jabuticabas, sobra capacidade e falta exportação

Protecionismo cria ilha sem produtos competitivos

Palio, Gol, Strada, Onix e Uno. Estes carros, todos projetos da engenharia brasileira de fabricantes multinacionais, juntos representam quase um quarto das vendas de veículos leves no Brasil, o quarto maior mercado automobilístico do mundo, com 3,3 milhões de unidades vendidas em 2014. Contudo, tamanha relevância numérica tem pouca ou nenhuma importância para o resto do mundo fora das fronteiras do Mercosul. Nenhum dos campeões nacionais encontra muitos interessados fora dessa região restrita. Ou seja, o País se especializou em produzir bens sem competitividade para exportar, não só por causa do custo maior, mas também devido à baixa atratividade dos produtos, seja pelo tamanho ou qualidade abaixo dos melhores padrões internacionais. Pior: está se aumentando a capacidade de fabricar essas jabuticabas automotivas. Até é possível sobreviver assim quando os consumidores domésticos, sem poder de adquirir nada melhor, compram tudo sem reclamar. Mas em momentos de retração, como agora, paga-se o alto preço de não ter como escoar a produção, colocando em risco fábricas, investimentos e empregos.

Assim como qualquer pé de jabuticaba que só existe por aqui, a grande maioria dos automóveis brasileiros é exótica para o comércio global. Motivo: são produtos limitados pelo custo, pequenos e desenhados para “o gosto do consumidor brasileiro” – leia-se baixa qualidade tecnológica, acabamento rústico, segurança questionável e muito caros pelo pouco que oferecem, para acomodar no preço alta carga tributária e altos lucros. Só dá para continuar vendendo carros assim no mercado doméstico com altas doses de protecionismo contra a concorrência internacional melhor posicionada. Isso faz do País uma ilha automotiva, onde se produzem os piores veículos mais caros do mundo.

Não dá para exportar mercadorias assim mesmo com a ajuda do câmbio. A relação real/dólar está no mesmo nível do melhor momento das exportações da indústria automotiva brasileira, em 2005, quando foram embarcados pouco mais de 700 mil veículos, e nem assim as vendas do setor ao exterior ameaçam qualquer reação, seguem caindo para baixo do patamar de 300 mil unidades/ano, menos de 10% da produção. É quase nada e ninguém parece ter planos concretos, além dos discursos, para mudar isso. A indústria foi acometida por inanição exportadora.

NEM OS GLOBAIS SÃO EXPORTÁVEIS

Ampliando o leque para os 20 carros mais vendidos do País em 2014, apenas cinco são projetos globais – mesmo assim, depenados em maior ou menor grau para caber no bolso do freguês local. E nenhum desses é exportado para fora do Mercosul, pois outras plantas no mundo fazem a mesma coisa com custos mais competitivos. Exemplo maior dessa discrepância talvez seja o mais global deles produzidos no Brasil, o Toyota Corolla feito em Indaiatuba (SP), que no máximo é exportado à Argentina, enquanto outros mercados sul-americanos importam o veículo do Japão, no outro lado do planeta, com preço melhor que o brasileiro.

Fabricantes de marcas premium que vão produzir no Brasil carros BMW, Mercedes-Benz, Audi e Land Rover não têm qualquer plano de exportar esses produtos, nem mesmo aos países vizinhos, apesar de prometer fazer aqui com o mesmo padrão da Europa. O motivo do contrassenso é que serão veículos apenas montados no País, com altas doses de componentes importados, a peso de dólar valorizado. Portanto, só será possível vender aos brasileiros esses automóveis “nacionais” de alta qualidade a preço de importado.

É mais uma distorção causada pelo protecionismo brasileiro no setor, que praticamente obriga à implantação de fábricas como única forma de driblar sobretaxações ao que já é altamente taxado (o carro). Criou-se assim um paradoxo, uma política de incentivo ao que é considerado a maior chaga da indústria nacional: a baixa produtividade, para fabricar 20 mil ou 30 mil unidades/ano com alta rentabilidade, transferindo-se a ineficiência de uma operação como essa para o preço final.

Por falar em produtividade, não faltam estudos que jogam para o abismo a eficiência da indústria automotiva nacional. Mas não custa perguntar: se fossem produzidos aqui produtos de maior valor agregado, com grande volume de componentes nacionais de alto padrão tecnológico, a produtividade não deveria aumentar automaticamente? Parece óbvio que sim, já que fazer carros de alto padrão eleva o valor do trabalho. Produzir mais com menos é o “santo graal” buscado por qualquer indústria.

POLÍTICA DE INCENTIVO À INEFICIÊNCIA

Produzir carros globais com custo competitivo para exportação significa, também, elevar o valor agregado dos produtos vendidos no mercado doméstico, que assim subiria de patamar. Esse deveria ser o foco da política adotada para o setor, em vez do protecionismo que eterniza a ineficiência, ao incentivar a ampliação do número de fábricas ociosas que só produzem veículos para o mercado local – calcula-se que a ociosidade das plantas de montagem no Brasil pode atingir de 40% a 50% este ano.

Para mudar esse ciclo vicioso seria necessário incentivar bem mais o parque de fornecedores nacional do que as montadoras, pois disso depende toda a evolução da indústria. Sem componentes de alto padrão tecnológico não se agrega valor a nada. Como os fabricantes brasileiros de autopeças ficaram para trás na corrida tecnológica, a verdade doída é que hoje no País simplesmente não há como fazer um veículo internacionalmente competitivo sem montes de peças importadas – e aí perde-se a competição.

O País precisa escolher o que quer ser: um grande montador de carros de baixo padrão, invendáveis no exterior, com indústria de autopeças defasada, vulnerável aos suspiros do mercado interno (o que somos hoje); ou um fabricante de veículos de bom valor agregado, que ao menos no curto prazo terá de ter grandes quantidades de componentes importados, enquanto não se cria política própria para incentivar a atualização tecnológica do parque de fornecedores. Não parece que está se trilhando o segundo caminho.

A associação dos fabricantes, a Anfavea, defende a ampliação dos acordos comerciais do Brasil com mais países. Pode ajudar, mas não existe acordo nem câmbio depreciado capaz de melhorar a qualidade de produtos ruins para vender fora de mercados protegidos como o brasileiro e o argentino.

É verdade que a política batizada Inovar-Auto (para alguns, o protecionismo disfarçado de inovação) trouxe investimentos ao País, mas nenhum deles, pelo que se viu até agora após dois anos de vigência do programa (!), irá atualizar o produto brasileiro ou baixar seu custo a ponto de credenciá-lo para a exportação.

Nem mesmo as obrigações de eficiência energética que as montadoras terão de cumprir sob o Inovar-Auto são suficientes para isso. Muito ao contrário, embora necessárias, essas atualizações tecnológicas não trazem nenhuma novidade competitiva, pois já existem nos países de origem das montadoras, e ainda que sejam bem-vindas vão aumentar os custos de produção por aqui. Sim, os carros nacionais podem até ficar mais econômicos e eficientes, mas continuarão a ser jabuticabas caras e pouco exportáveis. (Aliás, pela exoticidade, até jabuticabas parecem mais exportáveis do que os automóveis feitos aqui.)

Comentários

  • Mario Roberto Branco

    E saibam que as jabuticabas industriais não estão somente no setor automobilístico! Também são produzidas no setor de informática e de telecomunicações. A razão comum aos dois setores é justamente o que os empresários chamam de 'política industrial', para não darem a oportunidade de ser denominada de protecionismo, que é a verdade. Não é a toa que os dois setores estão enfrentando, juntamente com o governo brasileiro, um processo no Órgão de Solução de Controvérsias, na OMC, principalmente por conta das exigências contidas no INOVAR-AUTO, na Lei do Bem e na Lei de Informática, de altos índices de conteúdo nacional (coisa proibida pela OMC). E quem acusa é a União Europeia, que tem grande parte das empresas beneficiadas pelas mesmas leis! Estranho, não?

  • Alfonso Abrami

    A industria automobilística é uma grande cadeia global, e por isso, qualquer política de incentivo local é manca. O governo deveria incentivar modos de cooperação e integração entre cadeias de produção, e aplicar ao máximo as normas internacionais de segurança e consumo/emissões. Essa mesma indústria poderia projetar um novo veículo mundial e priorizar sua produção no Brasil. Atualizado em termos de segurança, eficiência, praticidade e estilo, seria facilmente integrável com outros mercados. Mas atenção: Não precisa ser veículo terceiro-mundista ou emergente. A única forma de competir globalmente é produzir algo que seja aceito também em mercados sofisticados. A jaboticaba bem produzida e embalada pode ser exportada, ou não? Será que somos tão incompetentes?

  • Vicente Pimenta

    Não adianta. Nada como o tempo para se ter clareza de que as intervenções artificiais sempre desvirtuam o desenvolvimento sadio. Isso aconteceu muitas vezes, não somente no Brasil, e o resultado todos conhecemos: as variações sobre o mesmo tema, como no caso da reserva de informática. Até em casa, geramos problemas ao superproteger os filhos, que são os que mais nos importam! Elas precisam seguir seu curso. Difícil falar mal do programa flex, que tanto orgulho nos deu, e que, em grande medida, fez muito bem à Engenharia Brasileira, mas o fato é que esse produto ainda apresenta rendimento e emissões que o torna difícil de comercializar fora de nossas linhas. Se ao menos tivéssemos modelos a diesel, que são mais caros e consequentemente, ao natural, já comportam maior valor agregado e são 100% exportáveis... quem sabe um dia.

  • Roberto Lopes

    O que existe somente no Brasil ou é Jabuticaba ou é besteira ! Existem 2 ilhas de excelência nacionais competitivas : EMBRAER e WEG motores , isto enquanto a China não interfira nestes segmentos. O desenho do INOVARAUTO foi realizado por este governo que aí esta com respaldo das montadoras locais no sentido proteger e preservar alta tributação e margens. O setor de autopeças que deveria ser beneficiado , desabou superado por importações. Mas ainda podemos pensar em uma reversão nos próximos 7 anos. Parte dessas montadoras não serão instaladas , outra parte vai ficar inviável e fechar . Não há como operar com 50% de ociosidade e justificar investimentos em um mercado em crise hídrica, energética, política e moeda volátil . Não podemos esquecer que nas crises é que se criam transformações e podemos ter aí uma oportunidade de reversão de políticas insanas (como tem de ocorrer na Petrobras) e solução desses imbróglios Federais , que nada tem a ver com a nossa cara Jabuticaba.

  • Fábio Colla

    Todo o produto importando, quando vira "nacional" é depenado. Um exemplo: determinadas colheitadeira quando vinham da Bélgica eram boas, quando foram nacionalizadas, ficaram piores... O próprio vendedor da marca afirma que elas foram depenadas no processo. Se pormos as duas na balança, a nacional terá cerca de 1.500 kgs a menos !!!

  • Yoshio Hinata

    Tudo vem do berço, a cultura e educação de um povo é a questão crucial. Não conseguimos ter ate hoje um carro de marca made in brazil. Porque? Enquanto Japão como um exemplo, copiou e aperfeiçoou e hoje tem mais de 10 marcas made in japan, não se diferencia os de consumo interno com os de exportacão no sentido de qualidade. Os produtos são feitos para consumo e o excedente que são exportaveis. Como se fala so no Brazil tem jabuticaba, poderia essa jabuticaba se tornar a perola japonesa de alto valor agregado. Ouvi uma frase em 1989 de um palestrante americano da Mackinsey, do jeito que caminha o brazil daqui a mil anos vamos estar falando, esse é um pais do futuro.

  • Alexandre Melatto

    Pedro, Escreva sobre o que tem achado do Mercado atual, sua visão é bem equilibrada. Obrigado. Melatto

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