ANÁLISE

INOVAÇÃO

O triunvirato da indústria e da competitividade


Novos ministros trazem expectativas altas em meio a uma onda de pessimismo


Definidos os novos ministros e secretários, e são muitos, entramos em um período de expectativas em torno das mudanças. No que se refere à atividade industrial, e em especial ao setor automotivo, apenas três entre os 39 ministros nomeados podem, de fato, atuar em conjunto para resgatar a indústria... ou simplesmente mandar-nos todos para casa.

Claro que as empresas têm lição de casa a fazer e seus dirigentes deverão tomar medidas duras de redução de margens e de custos, afinal, acabou a fase da euforia e não sabemos se algo parecido voltará no futuro. Mas os governos, e em especial esses três ministérios, desempenham um papel central em um momento como o que vivenciamos. Não só no Brasil. Basta olhar para a Coreia ou para os países do norte da Europa. É nas decisões desse triunvirato que reside a desindustrialização ou o salvamento da competitividade, das fábricas e, consequentemente, do emprego.

Estamos falando dos excelentíssimos senhores Aldo Rebelo, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Armando Monteiro, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e do poderoso ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Nunca antes a indústria torceu tanto para que os ocupantes dessas posições deem certo e se confirmem realmente como excelentíssimos. O que tem que ser feito por esses três mosqueteiros é sabido e, a julgar pelos discursos de posse e primeiros pronunciamentos, eles estão determinados a cumprir as tarefas. Bons sinais no horizonte, portanto. Eles sabem que, para salvar a indústria, serão necessários:
- Mais incentivos efetivos à inovação;
- A adequada gestão de programas de desenvolvimento da indústria e dos impostos que incidem sobre a produção;
- E, obviamente, que haja dinheiro para operar isso.

Se os três ministros orientarem sua inteligência, experiência e capacidade de articulação em favor da inovação e da recuperação da indústria, tudo pode mudar depressa. Está mais do que comprovado, inclusive por estudos que realizamos especificamente no setor automotivo, que quem inova mais vende mais. Mesmo em tempos bicudos, lançar veículos e manter-se conectado às demandas dos consumidores por meio de inovação permanente é vital para tomar fatias de mercado em épocas de reassentamento. Além disso, quem inova na crise sai dela primeiro, e mais forte. Notem que são as empresas mais inovadoras as primeiras a falar em recuperação.

Sem seu discurso, o ministro Rebelo falou em não deixar o Brasil virar uma “colônia científica.” Lembrou que produtos e ciência podem dividir os povos e criar relações coloniais entre países. Falou em soberania nacional e destacou que a inovação protege o país. É de fato a indústria o setor que inova. Não há país forte sem indústria forte. E sabemos bem o quanto as matrizes internacionais adoram receber royalties. Excelente começo, ministro Rebelo!

O ministro Monteiro, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que conhece como ninguém as necessidades desse setor, também deu sinais positivos. Durante a cerimônia de posse ele afirmou que seu primeiro desafio será “fazer com que os instrumentos da política de fomento à inovação tenham alcance ampliado” e citou como exemplo a Lei do Bem. Alias, ótimo exemplo. Das mais de 184 mil empresas do Brasil, apenas 1 mil utilizam esses incentivos para inovar.

Para que essas mudanças ocorram é preciso haver dinheiro. Entra aí o apoio do ministro Levy, e devemos estar otimistas também em relação a ele. Logo após a posse, Levy declarou que irá promover o aumento da eficiência produtiva e favorecer ganhos de competitividade. Sabemos que ele se opõe a incentivos setoriais e que precisa aumentar impostos. Mas, sensível e inteligente, é capaz de compreender o que é necessário restringir e o que faz a indústria andar. Certamente ele sabe que incentivos como os da Lei do Bem, embora pareçam renúncia fiscal, são, na verdade, investimentos para arrecadar mais. Afinal, quem inova vende mais, fatura mais e paga em média 30% de impostos a mais sobre esse aumento de receita.

Com relação ao Inovar-Auto, por exemplo, erra quem se refere a ele como incentivo setorial e, portanto, passível de corte. O Inovar-Auto é um programa de obrigatoriedade de localização, de eficiência energética e de inovação. E estes conceitos o novo ministro da Fazenda conhece bem.

O triunvirato sabe o que fazer. Em meio a uma enorme onda de pessimismo, ainda acho que vamos sair desse clima de crise antes do que imaginamos. Espero que não cantem para mim a música dos Mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim, se eu sou muito louco por eu ser feliz...”

Comentários: 1
 

Valter Pieracciani
01/04/2015 | 15h40
Obrigado Marcelo, Pela manifestação e forca. Vossos comentários são o estimulo que precisamos para seguir trabalhando e polarizando profissionais importantes em torno de ideias. Muito agradecido.

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