ANÁLISE

DISTRIBUIÇÃO

Um mundo sem motorista


Como ficará o mercado quando não precisarmos dirigir?


Um mundo sem motorista Como ficará o mercado quando não precisarmos dirigir? Talvez tenha sido por inspiração dos livros de Isaac Asimov, ou vendo os desenhos dos Jetsons, ou ao assistir ao famoso filme Blade Runner que Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, tiveram a visão e a ousadia de iniciar em 2009 o projeto de um carro autônomo (Driverless Car), ou seja, um automóvel que se dirige sozinho, dispensando a ação do motorista. O que na época parecia uma ideia meio esquisita, chocante e fantasiosa transformou-se em realidade e hoje representa uma das maiores frentes de investimentos de todas as marcas automotivas do mundo.

Algumas perguntas pipocam automaticamente quando pensamos que essa ideia poderá tornar-se realidade. Os consumidores vão querer deixar de dirigir? Os carros serão aptos a rodar de forma autônoma na cidade? O que o Google quer com isso? Qual o impacto dessa inovação no mercado automotivo caso grande parcela dos consumidores realmente decida aderir à novidade?

Pensando primeiramente no produto, os carros do Google não terão volante, pedal do acelerador ou do freio. Terão sensores que podem detectar objetos a centenas de metros em todas as direções. Os veículos de dois lugares terão apenas itens de conforto básicos: um espaço para pertences, os botões para dar partida e parar e uma tela que mostra a rota que o veículo está fazendo.

Além do gigante de tecnologia, as montadoras também trabalham nos próprios projetos. Algumas delas, em especial Mercedes-Benz, Volvo, Audi e Nissan, parecem estar bem posicionadas, em relação às demais marcas, para o lançamento de seus veículos autônomos. A Volvo, por exemplo, está com um projeto de implantar 100 carros totalmente autônomos na cidade sueca de Gotemburgo em 2017. Esse plano é desenvolvido em parceria com o governo local e exigirá mapeamento e gerenciamento cuidadoso da cidade e da tecnologia automotiva embutida nos carros.

A evolução dessa tecnologia tem provocado alguns institutos e órgãos, como a Rand Corporation, a pesquisar os impactos nas políticas governamentais que os automóveis autônomos terão nas cidades metropolitanas (veja aqui).

Outro exemplo recentíssimo é a Mercedes, que levou para a CES 2015 o projeto F015. Um carro capaz de rodar sem grande interferência do motorista. Veja mais aqui.

O lançamento está previsto para 2020. A Audi, por sua vez, lotou o Autódromo de Hockenheim e fez o seu site sair do ar com tantos interessados em assistir on-line ao evento para apresentação de seu RS7 autônomo. Veja aqui. Segundo a empresa, o objetivo é introduzir um modelo autônomo no mercado já neste ano.

Em 2016, a GM promete uma versão “Super Cruise” nos Cadillac. Em 2017, Google e Volvo prometem lançar seus carros 100% autônomos. A Nissan, em 2018. Muitos especialistas preveem que entre 2026 e 2035, ou seja, daqui a 10 a 20 anos, os carros autônomos serão um padrão na indústria.

Naturalmente, sempre haverá aqueles nichos de carros esportivos ou desenhados para segmentos de clientes que gostam de dirigir. Mas será que o mercado em geral irá realmente adotar essa inovação? Quais possíveis impactos podemos prever para a indústria, para o mercado e para a distribuição?

Uma pesquisa recente da Universidade de Michigan mostra que 62% dos australianos estão inclinados a aderir aos veículos automatizados - em comparação a 52% das pessoas no Reino Unido e 56% nos Estados Unidos. Assim, acredita-se que a adesão à tecnologia seja crescente à medida que a inovação for adotada e receios iniciais, superados.

Pelo tempo perdido no trânsito nas grandes metrópoles mundiais, pode-se estimar que uma grande parcela de consumidores irá realmente querer adotar esse novo meio de transporte. Segundo a Distractify, um americano médio passa cerca de 4,3 anos de sua vida dirigindo. Nas capitais brasileiras, um carro autônomo poderia economizar facilmente de duas a quatro horas diárias de grande parcela das pessoas que dirigem nos horários de pico.

Carros autônomos também tendem a aumentar a mobilidade de jovens, idosos e de pessoas com deficiência. A novidade deve também impactar fortemente o setor de transportes, dado que os caminhões poderão rodar por períodos mais longos.

O interior dos carros está sendo desenhado para absorver os diversos interesses e necessidades dos clientes. Também não podemos esquecer que o carro autônomo será também altamente conectado. Serviços e facilidades hoje disponíveis somente em tablets e smartphones estarão totalmente integrados e disponíveis dentro do veículo.

Segundo a Carinsurance.com, caso tivessem um carro autônomo, 26% dos americanos ocupariam o tempo de viagem nas redes sociais, 21% com leituras, 7% com videogames, 7% trabalhando, 10% dormindo, 8% assistindo a filmes e cerca de 21% apreciando o cenário do trajeto.

Enfim, a tecnologia está nos seus ajustes finais, a legislação está sendo preparada e há sinais fortes de que a adoção dos clientes será intensa. Portanto, temos fortíssimos indícios de que, em pouco tempo, essa realidade invadirá o mercado e transformará as nossas vidas.

Além disso, haverá pelo menos um novo grande player no mercado: o Google. Sua entrada no setor pode se caracterizar como uma simples brincadeira ou ser realmente uma das maiores ameaças que a indústria já enfrentou. O que não falta para a companhia são recursos e acesso ao mercado consumidor. Ao apresentar um protótipo totalmente elétrico e com total autonomia, em maio de 2014, o Google também deixou claro que está atuando de maneira séria para se tornar um player de mobilidade individual e tem realmente a intenção de colher os frutos do seu investimento neste projeto.

Certamente, aos olhos da indústria, essa aventura da empresa não passa de uma diversão e não representará grandes ameaças, dada a suposta falta de experiência da companhia em projetar, produzir e vender carros. É verdade. Mas a intenção do Google não é jogar dentro do campo das montadoras. Sua intenção é mudar as regras do jogo. A organização quer oferecer serviços de mobilidade, não vender carros. Ao oferecer esses serviços com carros autônomos e tecnologia embarcada a preços convidativos, certamente haverá impacto forte no tamanho do mercado automotivo tradicional.

Com estas cartas na mesa, quais cenários podemos projetar para o setor, mercado e distribuição? Seguem alguns insights, frutos de pura reflexão sobre esses fatos. Como em economia, quaisquer previsões são repletas de incertezas, mas de alguma forma ajudam a guiar as ações das pessoas e empresas.

Foco no produto vira foco em soluções e serviços
Com a hipótese de que, em 20 anos, o carro autônomo seja realmente um padrão de mercado, o setor automotivo precisará mudar sua proposta de valor, normalmente baseada na experiência de condução e dirigibilidade dos produtos. Será preciso entregar valor na experiência e soluções em mobilidade. O que importará se o automóvel tiver 350 cavalos ou torque de 120 kgf.m a 2 mil rpm se o cliente não estiver efetivamente dirigindo? Se o seu foco agora está no que ele pode fazer dentro do carro, o cliente estará interessado em como poderá aproveitar melhor seu tempo – lazer, trabalho, entretenimento etc.

Com isso pode-se esperar uma grande revolução nos automóveis, em seu design exterior e interior e oferta de equipamentos. Novos fornecedores, soluções e tecnologias irão fervilhar em uma revolução no setor análoga a causada pela chegada internet.

O portfólio de produtos da montadora poderá ser desenvolvido para prover um menu ou serviço completo de mobilidade ao cliente, para suas diversas situações. O cliente, ao invés de comprar um carro, comprará o serviço de mobilidade com várias alternativas e níveis de atendimento – mais ou menos luxuoso, com mais ou menos opções de carros, etc.

Com o foco das montadoras orientado mais para a experiência dentro do carro, enquanto o cliente deixa a tecnologia o levar, a responsabilidade da fabricante também aumenta. Se é o carro que dirige, em caso de colisão a responsabilidade também deixa de ser do cliente. Assim, a montadora deverá refletir sobre os custos e riscos de seus carros. Empresas de seguros e a legislação de trânsito deverão adaptar-se.

Novos modelos de negócio e serviços em mobilidade
Novos modelos de negócio baseados na mobilidade já estão sendo criados. A Zazcar aqui no Brasil é o perfeito exemplo de carsharing que está se espalhando pelo mundo. Com a introdução do carro autônomo, podemos esperar a criação de várias novas soluções e negócios em torno da mobilidade. Empresas de aluguel de carro terão de repensar totalmente o seu negócio. Uma boa parcela de taxistas deverá buscar novos empregos.

Empresas que posicionaram seus negócios estrategicamente pela localização e visibilidade do motorista deverão rever sua forma de comunicação, já que cliente não estará mais observando o trânsito. Captar sua atenção no momento do transporte será um dos focos de oportunidade que se abrirá.

Varejo sobre rodas deverá ser uma tendência. Minilojas sobre quatro rodas, que poderão expor e vender produtos tais como roupas, lanches, bebidas, ou seja, toda a sorte de artigos de compra por impulso e de consumo rápido.

Outro flanco de oportunidade será a oferta de serviços de leva e traz monitorados para atender jovens, idosos e deficientes. Profissionais liberais poderão trabalhar dentro dos carros e oferecer mobilidade enquanto atendem. Por exemplo, você poderá ter uma aula de violão enquanto vai ao trabalho, ou ser atendido pelo seu massagista ou terapeuta.

Empresas e condomínios poderão ter a própria frota de carros autônomos, porém menor do que a atual, ou ter contratos com empresas como a Google para propiciar serviços de leva e traz.

Novo modelo de distribuição

Com carros autônomos, por que o cliente deverá comparecer à concessionária para comprar o veículo? Neste mundo tecnológico, a compra pela internet não é obstáculo, provavelmente é até uma preferência. Assim, por que não receber o carro em casa? Precisar ir à oficina fazer revisão? Por favor, não. Que o carro vá e volte sozinho! Se estiver quebrado, que venha uma carreta autônoma! Ah, nada como não ter mais experiências negativas em oficinas.

Se o cliente não necessitará mais da rede autorizada nem para comprar nem para manutenção do seu veículo, qual será o papel da rede? Deixará de existir? Provavelmente não, mas qual será o elemento fundamental de agregação de valor que irá prover? Ficará restrita à captação de carros usados e a venda de carros de nicho? Servirá como pool para as soluções de mobilidade? Com a mudança de seu papel, certamente estrutura, competências e processos, que hoje estão presentes, deixarão de existir para dar lugar a novos modelos.

Como podemos ver, a chegada do carro autônomo trará mudanças oceânicas em toda a cadeia automotiva, desde os fornecedores, montadoras, concessionárias e até nas empresas que têm o transporte como peça fundamental do seu negócio, como taxistas e transportadoras.

Oportunidades, ameaças e inúmeras novas possibilidades irão fervilhar brevemente. Será emocionante viver e acompanhar essa revolução nas próximas décadas. Assim, convido o leitor a compartilhar suas ideias e impressões sobre este futuro que está logo ali, virando a esquina. Ouvir mais e mais profissionais ajuda a criar estes cenários e a nos preparar melhor para este maravilhoso mundo novo que vem por aí.

Comentários: 1
 

Alex Machado
15/01/2015 | 09h27
Carlos, excelente sua análise, mostrando a revolução que estamos prestes a presenciar. Creio que chegaremos ao ponto de não ficar a critério do consumidor se quer, ou não dirigir. Simplesmente não será permitido fazê-lo como hoje se concebe, sendo um ato controlado da mesma forma que o manuseio de armas. E a razão é essa mesmo, o número de mortes no trânsito. Utópico? Não será de imediato, mas antes do que esperamos.

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